A síndrome do fim de mês
Por que os últimos dias do mês causam tanto estresse e correria?
A
expressão síndrome do fim de mês é muito comum para todos os profissionais
da cadeia de abastecimento, estejam eles trabalhando no recebimento, no PPCP (Planejamento,
Programação e Controle da Produção) ou até mesmo na expedição de quaisquer
produtos.
Por incrível que pareça, não são somente os produtos de origem
agrícola, de época ou sazonais que estão sujeitos às variações de demanda em certos
períodos.
Consultando diversos profissionais, já catalogamos as mais diversas
respostas. Eis algumas, e até curiosas:
1 - O efeito
tributação, onde impostos são recolhidos no mês em curso ou no próximo, assim todo e
qualquer faturamento acaba sendo com a data do dia primeiro;
2 - Se a
empresa recebe os produtos no dia primeiro, ela tem 30 dias para processar ou desovar este
estoque e assim acaba fechando o mês com estoque menor;
3 - Como
muitas programações de produção são ainda baseadas em um lote/mês, para compensar o
tempo utilizado para mudanças de produto (setup), há um velho hábito,
visando melhorar os indicadores de produtividade, de produzir os grandes lotes no início
do mês, deixando-se para o final do mês os pequenos lotes. Assim, se o cliente compra
dois ou mais produtos e quer receber tudo numa remessa só, pagando um único frete, e um
destes produtos é de pequeno lote, nem preciso dizer que a empresa vai arrastar aquele
estoque do de lote grande, até completar o pedido, faturar e entregar. O mesmo acontece
se, no lugar dos dois produtos, são duas peças que vão alimentar uma linha de montagem.
4 - Outro
fenômeno é que a maioria das empresas e até o Governo fazem o pagamento a seus
funcionários em fim de mês ou até no dia 05 do mês seguinte. A partir daí, e como é
hábito em algumas regiões, as donas de casa administram os recursos do lar, em especial
a alimentação, indo a um supermercado nos cinco primeiros dias do mês, sendo mais comum
num fim de semana, pois ir ao supermercado para alguns é um entretenimento e sempre há
promoções. O que isto produz na cadeia de abastecimento? Um verdadeiro
chicote.
Outra
conseqüência desta concentração de consumo é o blefe que algumas empresas do varejo
(e do atacado também) exercem sobre as indústrias. Muitas vezes, o varejo não repõe o
seu estoque, dizendo que não vendeu e está abastecido ou até super estocado, o que não
é verdade, mas este não abre os seus armazéns para comprovar. Como as indústrias
precisam faturar para cumprir os seus compromissos, chega um dia, geralmente após o dia
25, que ela é obrigada a fazer as promoções para desovar o seu estoque e isso acaba
causando um vício de todo mês aguardar o desespero de algumas indústrias e aí sim
obter as maiores vantagens.
Por outro lado, observa-se, mais uma vez nos supermercados, que entre os
dias 05 e 30, além destes estarem quase vazios pois são feitas apenas as compras
de emergência ou perecíveis as promoções e descontos não atraem a maioria dos
consumidores.
Há também outras causas do fenômeno do fim do mês, tais como as falsas
antecipações de uma exportação, apenas para evitar que o produto e a documentação
não se atrasem para não perder o compromisso.
Na época da
safra agrícola, esse pico de fim de mês gera uma falta crítica de
caminhões, que acarreta em atrasos no escoamento da produção.
Bem, todas estas e outras razões que existem criam um efeito em cascata
que vai até a fonte de matéria-prima: a estratégia de empurrar a produção baseada em
previsões de vendas muitas vezes com dados históricos que simplesmente não acontecem,
causando mais uma vez uma descrença nos sistemas just-in-time (hoje chamado
de manufatura enxuta), kanban e outras ferramentas de puxar, CPFR (Collaborative Planning,
Forecasting and Replenishment, Previsão, Planejamento e Reabastecimento Colaborativos)
entre comércio e indústria.
Mesmo com as
informações on-line ou consultas via internet, um grande e concentrado
consumo em poucos dias não estabiliza o abastecimento.
2010
Reinaldo Moura
é fundador e diretor do Grupo IMAM, composto pelo Instituto IMAM, IMAM Consultoria e IMAM
Feiras e Comércio. É autor de diversos livros e instrutor de cursos relacionados à
área de logística.
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