Automação na logística: quanta insensatez!
Depois
de desenvolver mais de 700 projetos em logística, é realmente assustador constatar que
apenas um reduzido número de empresas consegue implementar, de forma econômica e
consciente, investimentos em automação logística.
Centros de distribuição, armazéns, fábricas, portos, ferrovias,
aeroportos e lojas são exemplos de onde a automação logística está sendo aplicada,
seja no que diz respeito ao fluxo de informações (tecnologia da informação
softwares e hardwares), seja em relação ao fluxo de materiais (infra-estrutura física
robôs, transportadores, transelevadores, etc.).
Ao longo dos últimos 25 anos, no relacionamento com pequenas, médias e
grandes empresas, pudemos observar a carência do mercado em relação a profissionais
gestores de projetos, e destes, apenas uma minoria apresentava capacitação para
demonstrar adequadamente às empresas (dirigentes e acionistas) as reais vantagens e
desvantagens econômicas e financeiras, qualitativas e quantitativas, entre outras, que
fazem um projeto de automação logística comprovar resultados no curto, médio e longo
prazos.
A insensatez observada nesses investimentos não se dá somente no Brasil
mas, principalmente, em empresas de países em desenvolvimento, que visualizam a
automação como uma estratégia para serem globalmente competitivas. Não significa que
isso também não ocorra em países desenvolvidos. Entretanto, neste caso, eles
normalmente são os responsáveis por deixarem muitos profissionais obcecados pela
tecnologia, o que às vezes resulta em levar suas empresas a um desnecessário cenário de
dificuldades financeiras, pois as que investem em automação na logística geralmente se
encontram em boa situação financeira.
Além disso,
existe uma outra grande preocupação em relação a esses investimentos, pois nos
últimos anos deparamos com gestores de projetos altamente capacitados, muitos deles
inclusive certificados em gerenciamento de projetos, mas com objetivos divergentes dos
objetivos do acionista. Destacamos isso, pois também estando na posição de acionista,
sabemos o que pode significar um mau investimento.
Uma análise de viabilidade econômica do projeto deve subsidiar a decisão do acionista.
O gerente do projeto não deve tomar a decisão para o acionista, pois os riscos do
investimento recaem sobre este último e por isso ele precisa entender e ponderar todos os
impactos positivos e negativos de sua decisão.
O fato dos investimentos em soluções de automação envolverem grandes importâncias de
capital é um dos aspectos geradores de interesse dos profissionais envolvidos com os
projetos e que não tem nenhuma relação com os interesses do acionista, tais como:
1. Comissões
sobre a venda: elas podem influenciar os envolvidos na venda, fazendo com que eles apenas
avaliem a solução mais completa, em vez de considerar soluções mais simples e
econômicas que, em geral, são as mais viáveis;
2. A
remuneração de profissionais que participam de projetos de alto investimento é, em
geral, maior do que a de profissionais que participam de projetos de baixo investimento, o
que faz com que praticamente todos os envolvidos classifiquem a primeira alternativa como
a melhor;
3. Os
profissionais que aprovam e participam de projetos de automação de grandes
investimentos, mesmo sem retorno, são valorizados no mercado por diretores e gerentes que
também pensam em automatizar suas operações logísticas;
4.
Algumas consultorias que recomendam os investimentos em automação também desejam ganhar
status no mercado de projetos, justificando sempre após o projeto
implementado que os ganhos são qualitativos e não necessariamente econômicos. É
importante destacar que essa situação ainda é muito comum no mercado brasileiro, mas
que existem também empresas e profissionais realmente imparciais e que fazem uma adequada
demonstração de retorno sobre o investimento, maximizando o resultado para os
envolvidos.
Se nos
colocarmos na posição do acionista, é claro que não devemos apenas avaliar fatores
econômicos e financeiros, mas também todos os parâmetros que podem, de algum forma,
influenciar nos objetivos de curto, médio e longo prazos da organização.
Mesmo que o investimento não apresente retorno econômico com base nos
parâmetros quantitativos, ele ainda pode ser viabilizado pelo acionista como estratégia
para atingir os objetivos da organização.
Um dos
parâmetros quantitativos mais significativos e que mais dificultam a aprovação de
investimentos em automação na logística é o custo de oportunidade do capital investido
que, em muitos estudos de viabilidade econômica, é simplesmente desconsiderado. Este
único parâmetro é suficiente para inviabilizar totalmente o investimento quando este é
comparado com soluções que demandam menor investimento.
Já quanto aos parâmetros qualitativos, pode-se citar como exemplo a
melhoria do serviço ao cliente, que contribui direta ou indiretamente para o aumento das
vendas, ajudando assim a estimular o investimento. Mas é fundamental que o acionista
saiba o quanto ele está pagando por esta vantagem.
Em síntese, é evidente que a automação nos oferece várias oportunidades para melhoria
de nossos processos logísticos, porém é mais importante ainda destacar que sem uma
adequada análise de viabilidade, essa automação pode custar mais caro que seus
benefícios.
Assim, reflita sobre esses aspectos e assegure que sua solução possa ser
eficaz e não somente eficiente.
2010
Eduardo Banzato
é presidente do Instituto IMAM. É autor de diversos livros e instrutor de cursos
relacionados à área de logística.
www.imam.com.br
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