O CUSTO BRASIL E A NOSSA (DEFICIÊNCIA DE) INFRA-ESTRUTURA
As deficiências da
infra-estrutura atual no Brasil (seja em rodovias, ferrovias, portos, saneamento e outros
setores) são bem conhecidas da população, por estarem amplamente noticiadas na mídia.
Casos como o da BR 116, onde pontes caem e interrompem a rodovia, ou da BR 101 no
Estado do Rio de Janeiro, onde danos na via interrompem o tráfego entre centros
importantes, foram noticiados e estão na memória de todos. O fato é que estamos
assistindo a uma acentuada degradação da infra-estrutura do país, construída com
grandes sacrifícios e investimentos desde a época de 50. Não há manutenção
preventiva desta infra-estrutura, e a manutenção corretiva é sempre mais cara, pois
após os danos surgirem e se amplificarem, o custo de reparação é sempre mais elevado
do que quando as correções e reparos são feitos preventivamente.
O BNDES, na década de 90, já falava das possibilidades de crescimentos do Brasil serem
prejudicadas por gargalos na infra-estrutura, e de 10 anos para cá estas deficiências e
gargalos só se amplificaram. Na época, isto foi chamado de Custo Brasil, o custo, por
exemplo, de transporte da safra por estradas deficientes e mal conservadas, de embarques
em portos com capacidade insuficiente, o custo em saúde pública gerados pela
insuficiência de investimentos em saneamento, e assim por diante.
Se o Brasil quiser realmente entrar em uma trajetória de desenvolvimento sustentável, o
Custo Brasil tem de ser significativamente reduzido, e como os investimentos em
infra-estrutura tem prazo de maturação elevado, a preparação destes investimentos tem
de começar já.
Sistemas de transporte e saneamento, rodovias, ferrovias, portos, etc. necessitam passar
por um processo de várias etapas para serem realizados, como : elaboração de projetos
básicos e executivos, licitações (sejam obras públicas, concessões, ou PPP´s),
contratação, execução, e entrada em operação. Tudo isto demanda tempo, e não pode
ser feito da noite para o dia. Serviços de tapa buraco, como os que estão sendo feitos
no momento em rodovias federais, são meros paliativos, e não resultam em melhoria
duradoura de nossa infra-estrutura.
A solução para nossa infra-estrutura, tendo em vista a falta de capacidade de
investimento do Governo (Federal, Estaduais e Municipais) demonstrada nos últimos anos,
é realizar, além das obras públicas convencionais, a licitação de concessões (como
as concessões rodoviárias, em que os projetos são auto-sustentáveis), e de Parcerias
Público - Privadas (PPP´s em que é necessário o aporte de recursos fiscais, mas
de forma sustentável, e compativel com a capacidade de pagamento dos governos).
De fato, se analisarmos o crescimento anual da infra-estrutura em setores selecionados,
constamos o seguinte quadro, que é desanimador (ver www.bndes.gov.br) :
Crescimento anual da infra-estrutura em setores selecionados
Setor |
1951-1963 |
1964-1980 |
1981-1993 |
1994-2002 |
| Ferrovias |
-0,3 | -1,6 |
1,0 |
-0,5 |
| Energia Elétrica |
9,8 | 9,8 | 4,1 | 3.8 |
| Rodovias Pavimentadas | 23,9 | 16,0 | 4,9 | 1,5 |
| Telefonia |
6,8 | 11,2 | 6,9 | 22,9 |
Fica fácil perceber, no quadro acima, a degradação do setor
ferroviário, que não foi revertida nem com as privatizações e concessões realizadas,
e do setor rodoviário, que apresenta problemas, conhecidos por todos, de conservação e
manutenção, com exceção dos trechos já concedidos a concessionárias privadas, e onde
há um tipo de subsídio cruzado que permite realizar a manutenção dos trechos não
concedidos por falta de viabilidade econômica, como por exemplo no Estado de São Paulo,
através do gerenciamento do setor pela ARTESP (Agencia Reguladora de Transportes do
Estado de São Paulo).
O setor elétrico também apresenta taxas preocupantes de crescimento, baixas, que podem
se revelar insuficientes, caso a economia brasileira venha a crescer na faixa de 5 a 7% ao
ano, como está ocorrendo nos nossos vizinhos sul americanos.
A exceção à regra é o setor de telefonia, que sempre cresceu, e mais acentuadamente
ainda após a onda de privatizações e concessões da década passada.
O investimento total em infra-estrutura do Governo Federal, que em paises similares ao
Brasil (como a Índia e a China), tem atingido porcentuais iguais ou superiores a 3% do
PIB, aqui no Brasil tem ficado em magros 0,4%, o que é insuficiente até para uma
manutenção da infra-estrutura existente, construída em décadas, como resultado de
muito trabalho.
É importante, essencial mesmo, para se ter um desenvolvimento sustentável (que é o que
todos queremos), aumentar o investimento em infra-estrutura para níveis adequados,
eliminando os gargalos atuais. Como as vinculações do Orçamento (da União, Estados e
Municípios), e os compromissos com o superávit fiscal impedem este aumento de
investimentos em projetos públicos tradicionais (pagps diretamente pelo Governo), urge
viabilizar as concessões e PPP´s, que permitem que o Estado atenda a demanda por
serviços públicos a um preço mais baixo, e com qualidade elevada. Atinge-se esse
objetivo delegando tanto a construção da obra como a operação do serviços para o
empreendedor, que fica responsável pela construção e operação da concessão ou PPP.
Nas PPP´s, os pagamentos são feitos na medida em que o serviço é disponibilizado, e
baseados no cumprimento das metas pré-fixadas.
O Brasil tem de sair da região de calmaria em que se colocou, e os novos
ventos estão ai, precisando de implementação séria, rápida e eficaz.
fevereiro/2.006
Roberto Kochen,
Engenheiro, Diretor Técnico da GeoCompany Tecnologia, Engenharia & Meio Ambiente (www.geocompany.com.br), Diretor
Técnico da UPADI União Panamericana de Associações de Engenheiros, e Diretor do
Departamento de Engenharia Civil do Instituto de Engenharia de São Paulo).
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