Liderança na berlinda

Líderes são as pessoas responsáveis pelo andamento de uma empresa, setor ou grupo. Teoricamente são os profissionais mais preparados para exercerem a função, no entanto, a realidade mostra que o despreparo é maior do que se imagina por parte de muitos desses comandantes, especialmente em situações cotidianas.
Um dito popular diz que “cachorro que não se parece com o dono é roubado”, significa dizer que uma empresa ou setor tem a “cara” de quem a comanda.
Assim, tendemos a transpor para nosso local de trabalho nosso ritmo, visão e forma de conduzir as ações cotidianas.
Os líderes são muitas vezes admirados ou odiados de acordo com como se relacionam, transmitem instruções, cobram resultados, premiam, sancionam regras ou lidam com as situações de pressão. Sãos eles os responsáveis pela condução dos caminhos a serem trilhados.

Seus subordinados, liderados ou colaboradores teoricamente vêem ou esperam que o líder seja o profissional capaz e preparado para conduzir os rumos da empresa, dar o tom das discussões ou ainda imprimir o ritmo necessário ao andamento da organização ou setor. Muitos ainda esperam que a liderança seja capaz de fornecer caminhos para a resolução de problemas ou desafios.
Mas a realidade está longe disso, vivemos atualmente uma séria crise de liderança. E pelo menos oito pontos merecem ser questionados. Tais pontos foram levantados através de pesquisa realizada junto a 1.217 colaboradores de diversos setores, são eles:

1) Prática diferente do discurso – em muitas empresas ainda impera o velho ditado “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”. Palavras são fáceis e belas de serem proferidas, porém, a distância entre o discurso e a prática é, em muitos casos gritante a tal ponto que chega a ridicularizar quem as profere. Há a força das palavras, mas não a força do exemplo. As pessoas não são estúpidas a ponto de não notarem essa diferença, e o pior é que quando essa situação ocorre a liderança é posta na berlinda e perde o apoio informal dos colaboradores.

2) Exigência de criatividade ou resultados sem tolerância aos erros – freqüentemente em épocas de fechamento de mês, ou necessidade de ganhar ou manter mercado, responder a consumidores ou concorrentes ou qualquer outra situação que exija da equipe empenho extra em termos de resultados ou criatividade muito líderes preparam palestras, campanhas de premiação e assim por diante. Pedem que seus liderados produzam resultados extras. No entanto, como em toda atividade humana o erro faz parte do processo. Nos momentos em que os resultados não aparecem conforme o desejado “cabeças rolam”. Exige-se criatividade ou resultados e quando eles não aparecem procura-se culpados. Quando essa situação ocorre, o grupo perde a coragem de arriscar, pois sabe que se falhar será penalizado.

3) Falta de reconhecimento – não importa se você salvou o mundo na semana passada, se nessa semana não fizer o mesmo: rua. Com o tempo a produtividade e o clima nos setores em que não existe reconhecimento tendem a tornar os colaboradores insatisfeitos. Não se prega que se deva viver das conquistas passadas, mas reconhecer um bom trabalho, um feito que auxiliou o grupo ou a empresa ajuda a dar um novo ânimo ao grupo. É detestável conviver com pessoas que não conseguem valorizar ou admitir um bom resultado.

4) Metas irreais – todo desafio deve ser possível de ser alcançado. Metas ou exigências irreais tornam o grupo apático, desanimado ou descomprometido com a causa. Muitos líderes não se dão por satisfeito em momento algum, nada os contenta, nunca é o bastante, nunca está como queriam. É muito difícil manter talentos em ambientes que funcionam dessa forma e o resultado é quase sempre trágico.

5) Líderes sem preparação – os líderes mandam seus colaboradores a treinamentos, mas poucos são os que também fazem cursos, treinamentos ou participam de palestras. As mudanças são bastante rápidas e severas com os que não a acompanham. Líderes necessitam tanto de treinamento quanto liderados, talvez até mais, afinal sua responsabilidade pelos resultados é extra. Mais uma vez “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”.

6) Demissão ou contratação sem respeito – demitir alguém é sempre difícil para ambos os lados (ou pelo menos na maioria das vezes); um ponto fundamental é que a demissão deve ser justa com quem a recebe, a pessoa tem direito, a saber, os motivos de seu desligamento. Existem líderes que tornam esse momento um verdadeiro show de horrores. Muitos por motivos pessoais (ao invés de profissionais) desligam pessoas importantes no processo de crescimento ou manutenção de uma empresa. As vezes por discordâncias pessoais, ou para privilegiar alguém ou algum ponto de vista divergente ou até mesmo (pasmem) por puro ciúme ou sentimento de ser ameaçado. Do lado contrário, há líderes que contratam pessoas segundo sua ótica, muitas vezes buscam externamente alguém e sequer dão chance a alguém da própria equipe concorrer ao cargo, isso causa no mínimo desconforto.

7) Ambiente de trabalho com competitividade negativa – a competitividade é um dos motores do desenvolvimento, do crescimento e da melhoria se bem conduzida. Alguns líderes instigam a competitividade predatória, num ambiente em que é “matar ou morrer”. Muitos desses líderes fazem comparações entre pessoas ou setores acreditando estarem incentivando seus liderados. Dependendo da maneira como for feito o efeito é contrário. Ninguém gosta de se sentir diminuido ou ridicularizado, é uma regra básica muito bem entendida pela maior parte dos profissionais, no entanto, novamente entra o despreparo de alguns líderes e consegue acabar mesmo com uma equipe coesa e produtiva em pouco tempo.

8) Eu fiz, eu aconteço, eu sou – não há quem suporte pessoas que tomam para si todos os méritos quando a idéia, trabalho ou empenho não foi genuinamente seu. Muitos líderes cometem esse erro banal de puxar para si as glórias e distribuir os fracassos ao grupo. Eu fiz, você falhou. Eu consegui, você não teve competência. Eu sei, você ainda tem muito a melhorar. Cuidado com esse tipo de postura, bons profissionais não suportam por muito tempo ver uma luz artificial e falsa tentar a todo custo se firmar passando por cima das realizações de um conjunto.

Ser líder, sobretudo é em muitas circunstâncias ciência e em outras uma arte. Um cargo, uma plaqueta ou uma designação não torna alguém um líder genuíno.
As habilidades de um líder devem vir a tona com seus exemplos. O tempo dá o tom do profissional de destaque e também evidencia os medíocres.
Em época de grande exigência dos consumidores, da profissionalização da concorrência e dos produtos e serviços cada vez mais similares, o lado humano é posto a prova, e francamente muitos líderes se avaliados não seriam selecionados para cargo algum na empresa ou setor que comandam.
Não se é líder senão na medida em que se é capaz de gerar paixão e partilha a todos do grupo. Um líder mais do que conduzir as pessoas como uma manada deve ao invés gerar sentimentos de participação, importância e conjunto. É para isso que existem os líderes: conduzir pessoas a realizarem algo em prol de uma causa em que acreditam ou passam a acreditar.
Segundo Sun Tzu "Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível”.

agosto/2.005

Fábio Violin,
Professor Universitário, palestrante e consultor de empresas.

Colaborador ou colunista em mais de 200 sites no Brasil e exterior
flviolin@hotmail.com e flviolin@yahoo.com.br


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