CORREDOR BI-OCEÂNICO – SAÍDA DO BRASIL PELO PACÍFICO: PROJETO VIÁVEL?

Nos últimos tempos o país tem se ocupado em exercitar a sua capacidade de saída pelo mar, mas pelo lado oposto, diversa do Oceano Atlântico. Utilizando a sua fronteira terrestre para alcançar o Oceano Pacífico.
Muito se fala sobre isso e muitos tem a convicção, pelo que se percebe, de que haverá um grande ganho com isso. A começar por uma extraordinária redução do custo logístico pela redução da distância. O que ajudaria a reduzir o custo Brasil, pelo menos através da perna da logística. O que não se tem conseguido fazer através das demais pernas do custo Brasil, quais sejam, o juros e a carga tributária. É que a logística depende exclusivamente das empresas, graças a Deus. Está certo que o Estado até atrapalha, mas não de todo.
O país tem a intenção de criar, juntamente com seus vizinhos de fronteira, um corredor bi-oceânico ligando o Atlântico ao Pacífico. Para permitir a saída das exportações, e se for o caso a entrada das importações, por esse oceano.
Fala-se em corredor ferroviário e rodoviário, com utilização conjunta, dependendo da logística escolhida.
Segundo os experts no assunto, nossos produtos alcançariam o extremo oriente, em especial os grandes compradores, a China e Japão, percorrendo menos milhas marítimas. Em face de que a ligação entre os portos brasileiros e de nossos parceiros seria mais curta.
Em se tratando de mercadorias enviadas à costa oeste norte-americana poder-se-ia, inclusive, eliminar a passagem pelo canal do Panamá se isto tiver que acontecer.
Até que ponto isto pode ser verdade ainda está por ser verificado, e ainda não passa de especulação. São exercícios de teoria, visto que se ainda não existe nada que se pode afirmar sobre ele.
Mas, a priori, deve-se colocar os seguintes grãos de areia no caminho. Esperando que não se transformem em grandes pedras.
É preciso verificar quanto custará, e se o investimento no corredor se pagará. Ele deve ligar diversas partes do Brasil a algum porto no Pacífico e não ser parcial, que de nada valeria. É preciso lembrar que o gasto não é apenas na construção de estradas. Que estas deverão ser constantemente reparadas em face do desgaste natural do uso.
Lembrando que temos milhares de quilômetros de estradas no Brasil e que, cerca de 80% delas estão em péssimo estado. Algumas simplesmente intransitáveis como todos sabem e é constantemente apontado por transportadoras e pela NTC – Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística.
O corredor não será apenas rodoviário, mas também ferroviário, e o investimento aqui é bastante alto. Em especial há o problema das recentes privatizações da malha ferroviária. Lembrar que ela foi entregue sucateada à iniciativa privada entre 1995 e 1999. Após quase três décadas sem investimento do Estado, destruindo-a, literalmente. As concessionárias tem se debatido com ela, realizando grandes investimentos para torná-la operacional.
Bilhões de reais já foram investidos e ela ainda pode ser considerada de qualidade a desejar. Inclusive quanto a extensão da malha, extremamente pequena em relação às nossas necessidades e território. Sendo menos de 10% da malha ferroviária norte-americana. E igual à japonesa, porém, com o Japão sendo 22 vezes menor que o Brasil.
Fica difícil se pensar em tanto investimento com tão parcos recursos como o nosso. O país nem sequer ainda conseguiu atingir um ponto aceitável nas existentes estradas, vias férreas e equipamentos para suas utilizações.
Afora isso, considere-se que não deve ser levado em conta apenas o custo das construções e aquisições mencionadas acima. Há também o transporte em si. Afinal, é preciso considerar quanto custará levar as mercadorias até os portos do Pacífico. Além do custo do tempo envolvido no transporte e na logística.
É preciso saber quanto será o ganho em relação a redução das milhas marítimas. Sabemos que o frete de transporte marítimo é baixo considerando os investimentos, por exemplo, em navios e containers. Sabemos que o transporte rodoviário é dos mais caros que existem. É possível que o ganho em frete marítimo não compense o ganho em frete rodoviário.
Quanto ao ferroviário, há sempre a considerar a questão do transit time envolvido. É necessário pensar no estoque formado sobre trens. Embora seja um modal que venho defendendo com veemência no transporte interno, é preciso avaliar se compensa o ganho em frete marítimo resultante da redução do espaço marítimo percorrido.
Enfim, como se verifica, essa nova saída pode não ser uma questão tão “pacífica”.

novembro/2004

Samir Keedi,
Professor, escritor, autor de vários livros, entre eles Transportes, unitização e seguros internacionais de carga, Logística de transporte internacional, e tradutor oficial para o Brasil do “Incoterms 2000”.
samir@aduaneiras.com.br


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