Quem não vive o espírito de seu tempo, vive
suas mazelas.
O poeta diz que o contrário do amor não é o ódio e sim a indiferença.
Quantas vezes já fomos vítimas de pessoas mal humoradas, rancorosas e sem
a menor pretensão de ajudar ou aceitar ajuda?
Quem não conhece aquele sujeito que sabe tudo, que para ele nada presta,
ninguém serve, nada dá certo, e que sempre diz eu não avisei?.
Quantas vezes já fomos vítimas do(a) atendente de telemarketing da grande
empresa, que se apresenta como anjo de candura para nos oferecer algo, mas que no momento
de solucionar um problema tudo fica tão difícil, complicado e estressante?
Quem nunca se irritou com o garçom que demora em atender ou ignora nosso
chamado como se não tivesse visto, com a recepcionista que compreende nosso
problema mas diz que regras são regras, com o gerente que se faz de ocupado e nos
deixa aguardando infindáveis minutos ao telefone ou em pés na frente de sua mesa, com a
telefonista que nos deixa na espera ao som torturante daquele musica irritante? Isso para
citar apenas alguns exemplos do praticamente infindável poder da indiferença.
Constantemente ouço empresários e dirigentes reclamando dos seus
funcionários, alegam que não se encontra mais gente de qualidade, dizem
serem vítimas de pessoas que tem vícios de trabalho, fazem corpo mole, e
principalmente não se envolvem com nada.
Nada é suficiente para elas (as pessoas indiferentes), nada as contenta,
nada faz com que se movam de forma genuína. Em muitas situações o que se vê são
pessoas que passam oito, nove, dez, doze horas trabalhando, porém loucas para não
precisarem mais colocar seus pés naquele local.
Essas pessoas são aquelas que vivem reclamando, achando tudo difícil,
colocando defeito em tudo e todos a sua volta, e o pior, contagiam com desânimo aqueles
que chegam com todo o gás para produzirem algo.
Um senhor se aposentou, quase 63 anos de idade, 32 deles dedicados a uma
única instituição bancária. Passou mais da metade de sua vida lá, e pouco antes de se
aposentar revelou a alguns colegas que agora sim, iria se dedicar a algo que
realmente gostava. Passou mais da metade de sua vida fazendo algo que não gostava,
por puro comodismo, falta de diferenciação ou sabe-se lá qual motivo. Mas o fato é que
desperdiçou mais de 11.680 dias de sua vida. E a pergunta que não quer calar: para que?
Imagine esse senhor levantando todos os dias, semana após semana, mês
após mês, ano após ano e se dirigindo ao mesmo local, para fazer as mesmas coisas que
odiava, convivendo com pessoas que possivelmente não gostava, aturando e sendo aturado
todos os dias de sua vida para no final dizer que odiava o que fazia.
É inconcebível que um ser humano dedique sua vida a algo que odeia fazer.
A quantidade de pessoas que estão no lugar errado nos faz entender a indiferença da qual
somos vítimas constantemente quando precisamos nos relacionar com alguém em uma empresa.
A apatia e o desinteresse são tamanhos, e atinge a tantos que nem o melhor
profissional de motivação ou o melhor dos programas de melhoria conseguiria manter uma
criatura dessas ligada por mais que vinte dias.
Tenho uma séria restrição as pessoas que se dizem desmotivadas, que
querem que alguém massageie seu ego ou diga o quanto elas são queridinhas com palavras
de incentivo.
Posso estar sendo um tanto o quanto radical, mas creio que cabe a cada um
de nós buscar seu espaço, cabe a cada um decidir como será o seu dia, sua semana, seu
mês sua vida. Cabe a cada um definir como quer passar os próximos dez anos, e ninguém
pode fazer isso pelo outro.
Argumentos como não é fácil, já estou velho demais
para isso, tenho muito a perder são as muletas mais comuns.
Porém, aquele que por indiferença e desrespeito a sua vida e carreira se deixam levar
pelo comodismo, apatia e indiferença frente aos desafios não pode se queixar, afinal foi
ele quem decidiu estar nessa situação. Exatamente, decidiu sim. Isso porque as chances
existem para todos, as possibilidades estão em toda parte, aproveita quem quer e
fundamentalmente quem as enxerga ou deseja enxerga-las. E quando não se tem uma
oportunidade, se cria.
E se isso fosse tão difícil não teríamos as grandes evoluções,
inventos, mudanças de rumo na vida pessoal e profissional que sempre lemos nas revistas,
jornais, telejornais e na própria internet.
O problema é que você e eu podemos encontrar um desses sujeitos como
colega de trabalho, parceiro comercial ou qualquer outra situação que nos prenda a ele.
E o pior, parece que existe uma espécie de vírus que contagia aqueles que estão a volta
de um sujeito indiferente.
Milhares de pessoas compareceram ou viram pela televisão o enterro do
grande piloto Ayrton Senna, lembra dele? Quem não se lembra. Duas pessoas compareceram ao
enterro do bandido da luz vermelha. Mas qual o motivo de tal comparação? Simples: cada
um herda exatamente aquilo que propagou ou proporcionou aos que estavam a sua volta.
Vivemos do passado, usufruímos hoje daquilo que construímos, pregamos e
fizemos antes. E a jornada continua, pois vamos colher para a próxima semana, ano ou
década em um ciclo que vai até o fim de nossas vidas, aquilo que estamos realizando
nesse momento.
Segundo a Bíblia o ser humano é dotado do livre arbítrio, cada um pode
decidir o que será e como será sua vida. Sendo assim, todos têm o direito a serem
medíocres, a realizarem menos do que desejavam ou poderiam, não há problema. O problema
é que a maioria dessas pessoas são amargas e o pior amargam a
vida alheia e isso é inconcebível.
Muitos se ressentem por não progredirem o quanto gostaria e a
maioria não faz por onde progredir - e tornam a vida daqueles a sua volta um suplício. A
convivência é difícil, cansativa, literalmente um sacrifício conviver com alguém
indiferente.
Cabe a cada um de nós decidir se quer ser mal atendido, se quer conviver
com pessoas medíocres, azedas ou me perdoem a expressão literalmente
fracassadas.
Nada o impede de aceitar, como nada o impede de não aceitar ser ou
conviver com pessoas indiferentes as mudanças da vida.
Ainda existem aquelas pessoas que reclamam que antigamente era melhor, que
no seu tempo as coisas eram diferentes. Essas pessoas estão presas a um passado que já
não existe mais. Como diz a frase no epitáfio de Voltaire quem não vive o
espírito de seu tempo, vive suas mazelas.
Pode parecer lugar comum ou até piegas, mas o importante não é caminho
que se trilhou ou o ponto a que se chegou. O importante é o que se fez durante o caminho,
como a jornada foi aproveitada, e principalmente como ficou o caminho depois que você
passou.
Não peque pela indiferença, nem consigo, nem com o próximo.
Não faça menos apenas por ser mais fácil. Grandes avanços exigem grande
dedicação. Grandes resultados exigem grande empenho.
Ninguém é grande por acaso, ninguém é pequeno por acaso.
Pense nisso antes de aceitar ser ou conviver com alguém indiferente.
Se tiver que fazer, faça bem feito, afinal você esta trocando um dia de
sua vida por isso e, portanto no final tem que valer a pena.
outubro/2004
Fábio Luciano Violin,
Mestre em Estratégias e Organizações (UFPR).
Colaborador ou colunistas em mais de 140 sites no Brasil e exterior.
Professor universitário de graduação e pós-graduação.
Palestrante e consultor de empresas.
flviolin@yahoo.com.br
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