Desde 1997 venho batendo na tecla da criação de
consórcios, em diversos artigos, sustentando que esta é uma das duas maneiras práticas,
é claro que a meu juízo, de se inserir as pequenas e médias empresas no comércio
exterior. A outra é através de Trading Company, sendo desnecessário se comentar a
respeito já que sua atuação é bastante conhecida.
É de conhecimento geral que as pequenas empresas, em vários países do mundo,
principalmente dentre os mais desenvolvidos, representam parcela considerável do seu
comércio exterior.
E no Brasil, quanto elas representam? Segundo avaliações de nossos experts no assunto
elas representam entre 3,0% e 6%, dependendo do avaliador. O número de exportadores gira
ao redor de 17.000, num universo de mais de 4.500.000 de empresas.
Outro dado infeliz é que apenas algumas poucas dezenas de empresas representam cerca de
metade de nosso comércio exterior, uma dependência inadmissível.
Como se pode crescer no comércio internacional mantendo estes números? O resultado é o
nosso conhecido e constrangedor volume de exportações, agora de pouco mais de 10% do PIB
real, representando irrisórios cerca de 1% do comércio mundial, que nos
acompanha já há muitos anos. Principalmente que já representamos 1,5% no início dos
anos 80.
Após tantas batidas na tecla, já gasta, podemos ver já há alguns anos, com
satisfação, que os consórcios idealizados pela APEX/SEBRAE saíram do papel, e a
criação destas unidades em números crescentes parece apenas uma questão de tempo.
Acredito que em alguns poucos anos vamos nos arrepender de não os termos criados antes,
principalmente há uma ou duas décadas. Embora não sendo o modelo ideal, é melhor que
existam.
Para mim, que participei do consórcio da criação da exportação de frangos congelados
em meados da década de 70, é gratificante ver que outros produtos podem ter o mesmo
destino, iniciando a sua exportação ou incrementando-a. Dessa forma poder ser o
sucesso que o nosso foi, partindo de nenhuma exportação e agora ser de cerca de dois
bilhões de dólares, ou quase 3,0% das nossas exportações.
Antes tarde do que nunca podemos sonhar com a meta de exportação de 100 bilhões de
dólares, que se não cumprida até 2002, pode sê-lo num futuro não tão distante
daquele, como 2006.
E como ele deve funcionar? A mim parecem indispensáveis, como participante do mais bem
sucedido, a UNEF-União dos Exportadores de Frango, obediência aos requisitos:
1) A primeira coisa a ser levada em conta é que não poderá ser de infinitas empresas, mas de um número máximo de 10/15 empresas e, obviamente, de desenvolvimento mais ou menos homogêneo.
2) Deve ser democrático, ou seja, não deve prevalecer a vontade de uma ou poucas empresas, mas a vontade de todas.
3) A participação acionária deve ser igualitária entre as empresas, independente do tamanho e participação de cada uma.
4) A participação, quanto a parcela do produto a ser exportado, deverá ser de acordo com a capacidade de produção de cada uma. Esta parcela deve ser definida em reunião antecipada, de preferência para um futuro de médio prazo como alguns meses, para orientar as vendas futuras.
6) A rivalidade deve ficar restrita ao mercado interno, nunca sendo levada ao
externo. A união no campo externo deve ser total e as empresas devem agir, dentro do
consórcio, como hermanitos, beijinho beijinho, e nunca queimarem-se na conhecida e
perigosa fogueira das vaidades.
7) A produção deve ser, de preferência, uniforme, e é bom que se tenha marca
única. Embora os exportadores sejam os próprios produtores, sendo o consórcio um
escritório central de vendas, é como se o fabricante fosse único.
Era assim que funcionava a mãe dos consórcios, a UNEF, e é por isso que ela deu certo,
e o Brasil é hoje maior exportador mundial de frangos.
É claro que a UNEF não existe mais, tendo sido extinta em 1985, após cumprida sua
missão histórica. Mas o exemplo ficou, e se deu certo com um produto porque não daria
com outros?
É preciso, porém, por último, registrar que o consórcio não deve ser encarado como a
salvação da lavoura. Em virtude do pontos colocados acima, nem sempre fáceis de serem
seguidos, existe sempre a possibilidade do consórcio não ser bem sucedido se não for
bem administrado.
Louve-se, de qualquer modo, a idéia de se reviver os consórcios, de modo que possamos
com isto melhorar o ora vergonhoso percentual de nossas participações externas.
junho/2004
Samir Keedi,
Professor e autor, entre outros, dos livros Transportes, unitização e seguros
internacionais de carga, e Logística de transporte internacional e
tradutor do Incoterms 2000.
Samir@aduaneiras.com.br
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