Dia
destes viajei para ministrar mais uma palestra. O trajeto de ida foi à bordo de um avião
e tripulação da Varig. Ao término do vôo, a comissária comunicou aos passageiros:
Obrigado por voar Varig-TAM. Varig: ontem, hoje e sempre.
Meu
retorno deu-se através de um avião e tripulação da TAM. Desta vez os agradecimentos
tiveram o seguinte formato: Obrigado por voar TAM-Varig. TAM: uma empresa que tem
orgulho de ser brasileira.
Naquelas
poucas palavras estava a síntese da crise de identidade proporcionada por processos de
fusão ou incorporação de empresas que deixam para considerar, por último, o aspecto
humano. Não se trata apenas da diferença entre os slogans e do conflito entre as cores
azul e vermelha. Trata-se de culturas distintas e de empresas com modelos de negócio
diferenciados. Trata-se de anos de disputa pelo espaço físico nos saguões dos
aeroportos e pelo espaço subjetivo na mente dos consumidores. E, mais do que isso,
trata-se de um jogo sobre quem permanecerá em exercício e sobre quem irá engrossar as
estatísticas de desemprego.
Há
uma tensão estampada no rosto destes profissionais. Não bastasse atuarem num negócio
que tem a responsabilidade imanente da segurança e a pressão contínua envolvendo prazos
e horários as pessoas não compram assentos em aviões, compram economia de tempo
agora vêem-se às voltas com a incerteza de seus próprios futuros.
Quando
um jogador de futebol atinge determinada idade e abandona os gramados, ele pode se tornar
um técnico, montar uma escolinha ou investir em outras atividades fazendo uso dos
recursos financeiros acumulados ao longo de sua carreira. Quando um executivo deixa seu
posto, por opção ou por dispensa, pode buscar uma recolocação no mercado, tornar-se um
consultor ou partir para uma carreira empreendedora. Mas o que pode fazer um profissional
cuja expertise é pilotar aviões, caso seja demitido? Quantos conseguirão se recolocar
num mercado formado basicamente por apenas três agremiações, de uma das quais ele está
saindo?
Evitarei
dispor de meu espaço e de seu tempo para relatar números sobre a situação financeira
destas duas companhias. Tampouco tenho propriedade para falar sobre a tal crise da
aviação civil, embora julgue incompreensível o resultado negativo de uma equação
cujas variáveis são passagens mais caras, serviços mais modestos e aumento da taxa de
ocupação dos vôos. Intriga-me o fato de as companhias aéreas optarem pela efemeridade
dos assentos vagos em detrimento de sua ocupação promocional com custo mais acessível.
Esclarece-me o fato de outro player, a Gol, optar por sequer distribuir jornais em virtude
de seu último balanço ter apontado um lucro líquido por passageiro transportado da
ordem de R$ 0,80. Ou seja, a mera distribuição de um jornal seria suficiente para tornar
a operação deficitária.
Interessa-me
saber o que farão com os milhares de profissionais envolvidos, mais do que a cor da
última linha do balanço. O Estado brasileiro se desenvolveu e esqueceu a nação, as
empresas brasileiras cresceram e esqueceram as pessoas que nelas trabalham.
Crise e Oportunidade
É
velha a estória de que toda crise traz consigo ruptura e oportunidade. A sabedoria
chinesa (wei-chi) e grega (kairós) nos legaram isso. O curioso é que estamos
permanentemente em crise, nunca satisfeitos com o que temos. Feito crianças que lutam
para serem presenteadas com um brinquedo novo e o abandonam após quinze minutos de
divertimento, estamos sempre descontentes. Nossas crises pessoais são diárias. Nossas
empresas estão em crises constantes. Nosso país atravessa uma crise ininterrupta. Por
isso, resta-nos o tempo todo a necessidade de mudar e a urgência de fazê-lo enquanto
ainda nos resta tempo. O tempo é longo, mas nossos dias são breves.
Assim,
aos que atravessam crises, tenho muitos desejos. Desejo-lhes primeiro o discernimento,
porque é preciso separar as crises reais das imaginárias e distinguir o
mudar do mudar para melhor. Desejo-lhes a flexibilidade, pois
deve-se aprender a curvar-se diante da inexorabilidade dos fatos mesmo quando
confrontados com os argumentos mais sólidos. Desejo-lhes a ousadia, porque é preferível
tentar e arriscar a inclinar-se frente ao receio e às adversidades. Desejo-lhes a
criatividade, pois o mundo solicita que se faça diferente para que se possa evoluir. Mas,
sobretudo, desejo-lhes a coragem, para dominar o medo, para realizar escolhas, para
abdicar da estabilidade infeliz, para combater a hesitação, para negar o que não lhes
convém e para exigir o que lhes é próprio, por direito divino. Você faz o que te dá
medo e ganha coragem depois. Não antes. É assim que funciona.
Mediante
o uso destes atributos, empresas poderão cultivar o desafio de ingressar em novos
mercados, casamentos de conveniência poderão permitir-se capitular, talentos artísticos
enrustidos atrás de mesas de escritório poderão ser revelados.
Mediante
o uso destes atributos, seus relacionamentos poderão ser mais verdadeiros, seu trabalho
mais digno, sua compaixão mais autêntica, suas posses mais honestas e seu espírito mais
elevado.
outubro/2.003
Tom Coelho,
Graduado em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP
e especialização em Marketing pela MMS/SP, é empresário, consultor, escritor e
palestrante, Diretor da Infinity Consulting, Diretor do Simb/Abrinq e Membro Executivo do
NJE-Fiesp.
tomcoelho@tomcoelho.com.br
ICQ # 170 841 177
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