Nosso país vem recebendo, já há algum tempo,
felizmente, em todos os setores da atividade econômica, os ventos da modernidade
privatizante, muito embora, como todos sabemos, em ritmo muito mais lento do que a maioria
de nós desejaria que ocorresse e que se apresenta mister, de tal modo que o Estado ainda
tem grande participação na economia.
Na área de comércio exterior, em especial a de transportes e logística, não tem sido
diferente e muito já se clamou por isto, sendo este setor sempre relacionado ao custo
Brasil, um dos impedimentos ao crescimento vigoroso das nossas exportações, inclusive
encarecendo sobremaneira as nossas importações.
As privatizações das operações portuárias (lembrar que, infelizmente, não existe
privatização portuária, mas apenas de operações portuárias) bem como das ferrovias,
demoraram, mas saíram do papel. É bem verdade que quanto aos portos, mesmo após 7 anos
da sua Lei de Modernização, ainda falta muito para a finalização do processo, mas
está ai, e a perspectiva é de domínio total pela iniciativa privada, finalmente.
O mesmo clamor existe na questão aérea e, no entanto, algumas áreas parecem não
desejar ouvir a voz da razão, mormente daqueles que tem o poder de melhorar a
produtividade e a competitividade da economia brasileira, e continuam a fazer ouvidos de
mercador para este assunto.
Qual a razão de se manter aeroportos e a Infraero em mãos estatais quando toda a
economia, não só a brasileira, caminha celeremente para as mãos do capital privado que
é muito mais produtivo e ágil e todos já perceberam isto? Ou quase todos.
Este é o desafio a ser enfrentado no futuro próximo, já que é um setor de muita
importância, e que pode crescer muito mais se comandado pela iniciativa privada em toda a
cadeia.
Temos ouvido, como justificativa, que dentre os nossos 67 aeroportos apenas poucos deles
são lucrativos, sendo a maioria deficitários, e que a iniciativa privada não se
interessaria por eles, ficando estes, portanto, nas mãos do Estado.
Pode até ser, embora não se deva acreditar nisto pelo que sabemos que o capital privado
é capaz de realizar. Mas não seria o caso de colocar o assunto em discussão, e ver qual
a opinião e a reação dos interessados no processo de privatização, para que eles
próprios decidam, ao invés do Estado, eterno pai e padrasto de todos?
É preciso que a privatização total chegue, urgentemente, também ao setor aéreo, um
dos últimos baluartes do arcáico Estado empresário brasileiro, para que este tenha a
chance, como todos os outros, de mostrar o que pode ser feito, tanto pela carga, que é o
nosso interesse como profissionais de comércio exterior, como pelos passageiros. Isto
possibilitará que as empresas aéreas possam ter seus próprios depósitos, o que não
ocorre no momento, e instalem uma competição saudável na área, disputando a carga em
situação de igualdade com a EADI-Estação Aduaneira Interior, e barateando os custos
dos exportadores e importadores brasileiros.
Portanto, o Estado precisa colocar urgentemente os aeroportos e a Infraero à venda, ou
pelo menos, num primeiro momento, à exemplo da questão portuária, conceder a sua
exploração ao capital privado.
É preciso lembrar que o Estado brasileiro, com a sua alta ineficiência comprovada ao
longo dos anos, não apresenta condições de competição com a iniciativa privada, e ai
está a área portuária para confirmar isto mais uma vez, onde a produtividade aumentou
em várias vezes, e só para citar embarques de containers, passamos de uma produtividade
de cerca de 8 containers/hora para média de 40, atingindo marcas expressivas de 80
containers/hora.
Conclamo as partes interessadas a olharem para a frente e para o alto, e pensarem no
Brasil do futuro e não apenas nos seus interesses mais imediatos.
Precisamos dar seqüência à criação de um órgão único que cuide dos transportes,
conforme manda o figurino, pois não podemos continuar tendo um Ministério dos
Transportes, que não é dos transportes, mas de alguns modais apenas, ficando a
navegação aérea fora dele e pertencendo a outro Ministério.
Está mais do que na hora do país atingir a maturidade e agir com coerência também no
setor aéreo.
Samir Keedi,
Professor universitário,
autor do livro Transportes e seguros no comércio exterior,
e tradutor do Incoterms 2000.
samir@aduaneiras.com.br
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