Às vezes penso, às vezes sou.
Tenho
observado com cautela o comportamento das pessoas e suas atitudes na vida em sociedade. E
seja no ambiente corporativo, familiar, político, social, enfim, qualquer que seja o meio
no qual estejam inseridas, preocupa-me a instabilidade, a ausência de propósitos, a
fragilidade das personalidades, ante questões diversas que lhes são impostas.
As
pessoas parecem tomadas por um senso de urgência, um imediatismo subserviente, através
dos quais manifestam-se em defesa de interesses de curto prazo, pontuados isoladamente e
localmente, como se estivessem desconectadas do organismo social.
Políticos
fazem alianças historicamente incongruentes em troca de alguns minutos adicionais no
horário eleitoral gratuito, independentemente da dissonância ideológica e pragmática
futura em caso de êxito no pleito. Profissionais travam um verdadeiro jogo de xadrez em
suas companhias prejudicando o colega da mesa ao lado em lances ardilosos engendrados nos
corredores e nas pausas para o café, em busca de uma notoriedade que pretensamente lhes
venha conferir uma maior remuneração. Amigos cultivados ao decorrer de anos capitulam
nos momentos mais críticos, negligenciando ajuda e apoio. Familiares desagregam-se ao
primeiro sinal de dificuldade econômica. Pais apregoam a ética a seus filhos, enquanto
ultrapassam veículos pelo acostamento no final de semana, tendo-os por testemunhas.
Há
uma inversão recorrente dos valores, da ética, da moral, do caráter. As pessoas deixam
de ser o que sempre foram e passam a estar o que lhes convém.
Valores
A moral de um lobo é comer carneiros, como a moral dos carneiros é comer
a grama. Este instinto animal tem inconscientemente caracterizado o comportamento humano o
qual tem denotado uma moral dupla: uma que prega mas não pratica, outra que pratica mas
não prega.
Todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites
do mundo. Por isso, esta luta trata-se de litigar paradigmas. Criar e difundir novos. Não
esmorecer, mesmo sentindo a mente turva. Todos vivemos sob o mesmo céu, mas nem todos
vemos o mesmo horizonte. E quando se tem o horizonte enevoado, é preciso olhar para trás
para manter o rumo. A vida, disse Kierkegaard, só pode ser compreendida olhando-se
para trás. Mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.
Caráter é destino, disse Heráclito de Éfeso. É aquilo que fazemos quando ninguém
está olhando. É nossa particularidade, nossa maior intimidade, nosso segredo mais bem
guardado. É nosso maior companheiro, nossa maior paixão e, às vezes, nosso maior
fantasma. É construído desde a mais tenra idade, simbolizando nossa maior herança
e nosso maior legado.
Um homem de caráter firme mostra igual semblante em face do bem ou do mal.
Preocupa-se mais com seu caráter do que com sua reputação, pois sabe que seu caráter
representa aquilo que ele é, enquanto sua reputação, apenas aquilo que os outros
pensam. E sua firmeza de propósitos o faz com que opte pela singularidade de seu próprio
julgamento.
Caráter é destino. E o destino não é uma questão de sorte, mas uma
questão de escolha. Não é uma coisa que se espera, mas que se busca. O futuro de um
homem está decididamente escrito em seu passado.
O dinheiro, por exemplo, muda as pessoas com a mesma freqüência com que
muda de mãos. Mas, na verdade, ele não muda o homem: apenas o desmascara. Esta é uma
das mais importantes constatações já realizadas, pois auxilia-nos a identificar quem
nos cerca: se um amigo, um colega ou um adversário. Infelizmente, esta observação, não
raro, dá-se tardiamente, quando danos foram causados, frustrações foram contabilizadas,
amizades foram combalidas. Mas antes tarde, do que mais tarde.
Cada vida são muitos dias, dias após dias. Caminhamos pela vida cruzando com ladrões,
fantasmas, gigantes, velhos e moços, mestres e aprendizes. Mas sempre encontrando nós
mesmos. Na medida em que os anos passam tenho aprendido a me tornar um pouco pluma:
ofereço menos resistência aos sacrifícios que a vida impõe e suporto melhor as
dificuldades. Aprendi a descansar em lugares tranqüilos e a deixar para trás as coisas
que não preciso carregar, como ressentimentos, mágoas e decepções. Aprendi a valorizar
não o olhar, mas a coisa olhada; não o pensar, mas o sentir. Aprendi que as pessoas, via
de regra, não estão contra mim, mas a favor delas.
Por isso, deixei de nutrir expectativas de qualquer ordem a respeito das
pessoas. Atitudes insensatas não mais me surpreendem. Seria desejável que todos agissem
com bom senso, vendo as coisas como são e fazendo-as como deveriam ser feitas. Mas no
mundo real, o bom senso é a única coisa bem distribuída: todos garantem possuir o
suficiente...
Por
tudo isso, é preciso tolerância. É preciso também flexibilidade. Mas é preciso
fundamentalmente policiar-se. Num mundo dinâmico, é plausível rever valores, adequar
comportamentos, ajustar atitudes. Mantendo-se a integridade.
PS: O
texto utiliza frases de Albert Camus, Alexander Hamilton, Anatole France, Bertrand Russel,
Confúcio, Descartes, James Joyce, John Wooden, Melody Arnett, Pe. Antônio Vieira, Peter
Senge, Robert Sinclair, Schopenhauer, Shakespeare, Tristan Bernard e William Bryan.
agosto/2.003
Tom Coelho,
Graduado em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP
e especialização em Marketing pela MMS/SP, é empresário, consultor, escritor e
palestrante, Diretor da Infinity Consulting, Diretor do Simb/Abrinq e Membro Executivo do
NJE-Fiesp.
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