Sensível à necessidade de harmonização da Política Comunitária de
Ambiente com a Política Comum de Transportes, bem como do imperativo de eliminação das
distorções das condições de concorrência entre Estados-Membros, entre modos de
transporte e no seio de cada um deles, da não tomada em consideração dos aspectos
sociais e ambientais dos transportes e ainda, das dificuldades no financiamento e
recuperação de investimentos em infraestruturas de transportes, a Comissão Europeia,
desenvolveu ao longo da última década uma intensa actividade visando promover os
princípios da sustentabilidade, eficiência, concorrência leal, competitividade e
cooperação no sector dos transportes.
O Livro Branco Política Europeia de Transportes rumo a 2010: tempo
para decidir, recentemente publicado, assume-se como expressão final desta intensa
actividade, iniciada com a publicação do Livro Branco sobre Desenvolvimento Futuro
da Política Comum dos Transportes - (COM (92) 494 final), no qual a Comissão
Europeia ciente da insustentabilidade da manutenção das tendências e padrões de
crescimento associados à actividade de transporte, assume como emanação do conceito de
desenvolvimento sustentável a necessidade de assegurar uma mobilidade
sustentável, que permita dar resposta às necessidades da geração presente, sem
comprometer a possibilidade de desenvolvimento das gerações vindouras Princípio
da Solidariedade Transgeracional.
Consciente que a política tradicional de regulamentação directa não
assegura a viabilidade a prazo dos sistemas de transporte, a Comissão propõe no Livro
Verde Para uma Formação Correcta e Eficiente dos Preços dos Transportes -
Opções de Política para a Internalização dos Custos Externos dos Transportes na
União Europeia - (COM(95) 691 final), a adopção de instrumentos de mercado,
nomeadamente a formação de preços, visando assegurar que o preço pago pelos utentes
reflicta os custos sociais totais das suas deslocações. Neste sentido, propõe que os
sistemas de tarifação se baseiem no Princípio do Utilizador-Pagador, de acordo com o
qual, todos os utilizadores das infraestruturas de transporte deverão pagar os custos a
que dão origem, incluindo os custos ambientais e outros custos externos o mais perto
possível do local de utilização - Princípio da Territorialidade -, respeitando
igualmente o Princípio da Subsidariedade, segundo o qual o sistema deverá
fornecer um quadro baseado em princípios comuns a todos os modos de transporte, dentro do
qual os Estados serão, em grande medida livres de fixar o nível das taxas.
Finalmente, no Livro Branco Pagamento Justo pela Utilização das
Infraestruturas - Uma Abordagem Gradual para um Quadro Comum de Tarifação das
Infraestruturas de Transporte na União Europeia - (COM(98) 466 final), a Comissão
propõe o princípio de tarifação de acordo com o custo social marginal. Os
custos sociais marginais são os custos variáveis que reflectem os custos de cada
veículo ou unidade adicional de transporte que utilizam uma infraestrutura, devendo
reflectir os danos causados às infraestruturas e os custos resultantes do
congestionamento do trânsito e da poluição, variando em função de factores como a
unidade de peso ou o número de eixos, as horas de ponta, os percursos urbanos e as
emissões dos motores.
Mais do que uma mera continuidade da Política Comum de Transportes,
centrada na mobilidade sustentável, harmonização das condições de concorrência,
recuperação dos investimentos nas infraestruturas, o Livro Branco Política
Europeia de Transportes rumo a 2010: tempo para decidir preconiza uma reorientação
do próprio paradigma de abordagem, em que o âmbito de acção deixa de se limitar apenas
ao sistema de transportes (maximização do bem-estar do produtor) passando a centrar-se,
também, na garantia dos direitos dos cidadãos (maximização do bem-estar do
consumidor).
Colocar o Utilizador no Centro do Sistema de Transportes
É, finalmente, a assunção do desenvolvimento sustentável como emanação do
conceito de crescimento económico, tendo como finalidade última o desenvolvimento da
pessoa humana em todas as suas dimensões, designadamente na mais fundamental de todas, a
liberdade de escolher e de realizar o seu projecto próprio de desenvolvimento. Importa
salientar que o crescimento económico é um fenómeno de natureza meramente quantitativa,
que define a evolução da actividade económica, traduzida na quantidade de bens e
serviços produzidos numa determinada sociedade e posta à disposição das pessoas.
Neste sentido, o objectivo do Livro Branco Política Europeia de
Transportes rumo a 2010: rumo a decidir consiste em dotar a Comunidade Europeia de
um programa de acções visando a separação progressiva entre crescimento dos
transportes e crescimento económico. Com efeito, arrastados pelo crescimento económico
os transportes de mercadorias e de passageiros deveriam registar aumentos de 38% e 24%
respectivamente até 2010, o que agravaria o congestionamento dos centros urbanos e dos
principais corredores transeuropeus, comprometendo decisivamente a competitividade
económica da própria União Europeia.
A Comissão Europeia pretende desta forma colocar o utilizador no centro do
sistema de transportes (Parte III - Placing Users at the Heart of Transport
Policy), considerando a necessidade de alargar o âmbito de acções como as cartas
de direitos (já levadas a cabo em favor dos utilizadores do transporte aéreo) a todos os
outros modos de transporte. É igualmente assumido que a qualidade dos serviços,
perspectivada na óptica dos utentes/clientes de um serviço de transporte, bem como a sua
segurança constituem dois direitos fundamentais do cidadão.
Reequilíbrio Modal
Preço (P) = Custo Social Marginal (CSM)
Em concorrência perfeita e sem falhas de mercado, o custo social marginal é
igual ao custo privado marginal, pelo que os mecanismos do mercado conseguirão extrair
tantos bens e serviços quanto os recursos disponíveis o permitam.
No entanto, quando os preços de mercado não reflectem as situações de
escassez existentes (ar puro, capacidade de absorção do ambiente, infraestruturas,
etc.), a combinação das decisões individuais de produtores e consumidores deixa de
produzir benefícios máximos para a sociedade em geral. Assim, as externalidades
negativas conduzem a uma situação de deseconomia externa, que se traduz num excesso de
produção/consumo do bem que dá origem a essa deseconomia, visto o seu preço de mercado
não reflectir o seu custo social marginal.
Ao estabelecer a analogia para o sector dos transportes, verificamos que as
tarifas do transporte em geral, e do rodoviário em particular, não reflectem a
totalidade dos custos sociais, daí resultando uma procura artificialmente geradora de uma
concorrência que é prejudicial aos modos de transporte marítimo e ferroviário, mais
respeitadores do ambiente e menos sujeitos a problemas de congestionamento.
É exactamente esta, a abordagem preconizada pelo Livro Branco Política
Europeia de Transportes rumo a 2010: tempo para decidir ao promover o caminho de
ferro e o transporte marítimo e fluvial, visando permitir o aumento das quotas de cada um
destes modos, para os níveis de 1998, de forma a assegurar um reequilíbrio modal até
2010 (Parte I Shifting the Balance between Modes of Transport).
Assim, é assumido que o dinamismo de certos modos de transporte é reflexo não
só de uma melhor adaptação às necessidades da economia moderna, mas também da não
inclusão de todos os custos externos no preço do transporte e do incumprimento de certas
regulamentações sociais e de segurança, nomeadamente no sector dos transportes
rodoviários.
Encontra-se igualmente prevista a necessidade de reconciliar o transporte aéreo
e o ambiente (redução dos danos causados pelo ruído e pela poluição dos aviões),
tendo em consideração a crescente saturação do espaço aéreo e as limitações de
oferta de capacidade das instalações aeroportuárias. Infelizmente, os recentes
acontecimentos de Nova York e Washington, terão dado um decisivo contributo na
prossecução dos objectivos desta estratégia comunitária...
Para realizar o reequilíbrio modal até 2010, conforme solicitado pelo Conselho
Europeu de Gotemburgo, é defendida uma política de investimentos nas infraestruturas
ferroviárias (revitalização do transporte ferroviário), vias navegáveis interiores,
transporte marítimo de curta distância (criação de verdadeiras auto-estradas
marítimas) e operações intermodais (transformação da intermodalidade, não num
simples slogan, mas numa realidade competitiva e economicamente viável).
Política de Tarifação
Relativamente à política de tarifação de utilização das infraestruturas, o
Livro Branco prevê a sua uniformização, segundo o princípio do custo social marginal.
Esta tarifação não está ligada aos custos de capital, uma vez que estes não variam em
função do nível de utilização dos transportes. Poderá assim questionar-se se uma
política de tarifação baseada nos custos sociais marginais pode recuperar os custos das
infraestruturas junto dos utilizadores.
Nesse sentido, o Livro Branco prevê que em determinadas zonas sensíveis o
aumento de receitas poderá revelar-se insuficiente, designadamente se for necessário
construir as infraestruturas requeridas para a travessia de barreiras naturais. Importa,
por conseguinte, assegurar que a construção de uma nova infraestrutura possa beneficiar
de um rendimento, antes mesmo de serem geradas as primeiras receitas de
exploração. Ou seja, poderão ser aplicadas portagens ou taxas em toda uma zona para
financiamento de futuras infraestruturas.
Encontra-se igualmente prevista a harmonização do tratamento da fiscalidade
sobre os combustíveis profissionais.
Eliminação dos Nós de Estrangulamento através da realização da
Rede Transeuropeia de Transportes
As infraestruturas de transporte, enquanto pólos geradores de importantes
economias estruturais, são condição necessária para um desenvolvimento sustentável,
baseado na complementaridade das políticas de infraestruturas e das políticas regionais
e sectoriais, enquanto estratégia territorial europeia. Por esse motivo, a necessidade de
eliminação das restrições à circulação garantindo uma melhor integração dos
Estados-Membros no seio da União Europeia e especialmente nas regiões fronteiriças
constitui medida essencial para a conversão destas zonas em espaços competitivos a
nível europeu, representando assim, uma aproximação ao objectivo do equilíbrio
territorial, e ao fomento de sistemas urbanos fortes (Parte II Eliminating
Bottlenecks).
Até ao momento, tem sido difícil pôr em prática as ligações integradas nas redes
transeuropeias, designadamente por atrasos na execução das infraestruturas rodoviárias
e na modernização e coordenação das infraestruturas ferroviárias. Verifica-se
igualmente que embora a maior parte do congestionamento afecte as zonas urbanas, a rede
transeuropeia de transportes sofre também e cada vez mais de congestionamento crónico:
10% da rede rodoviária transeuropeia é diariamente confrontada com problemas de
congestionamento e 20% da rede de caminhos de ferro com factores de estrangulamento.
Neste contexto o Livro Branco actualiza as orientações em matéria da rede
transeuropeia (decididas pelo Conselho e pelo Parlamento Europeu em 1996), apostando na
eliminação dos nós de estrangulamento ferroviários e no reforço da
acessibilidade das regiões periféricas.
Dominar a Mundialização
A globalização da produção está a gerar uma procura de serviços de transporte à
escala global. Assim, num ambiente caracterizado pela globalização da economia e pela
consolidação da União Europeia, as grandes redes estruturais do território europeu
converteram-se num sistema de referência do desenvolvimento e da estruturação do
território à escala mundial.
No entanto, a actuação da União Europeia nos fóruns de discussão
internacional tem-se pautado até aqui por uma certa falta de protagonismo e
descoordenação entre os diferentes Estados-Membros. Neste sentido, o Livro Branco prevê
que para melhor salvaguardar os interesses da União Europeia, a Comissão deverá propor
o reforço da posição da Comunidade em organizações internacionais como a
Organização Marítima Internacional (IMO) ou Organização da Aviação Civil
Internacional (ICAO), assumindo um papel mais relevante a nível internacional na
salvaguarda da vida humana e protecção do meio ambiente (Parte IV Managing
the Globalisation of Transport).
Conclusão
O Livro Branco Política Europeia de Transportes rumo a 2010: tempo
para decidir estabelece mais uma vez objectivos ambiciosos na estratégia
comunitária de integrar a Política Comum de Transportes na Política Ambiental,
preconizando o reequilíbrio modal, a eliminação dos nós de estrangulamento
através da realização da rede transeuropeia de transportes, uma política de
tarifação baseada no custo social marginal, o protagonismo da UE no processo de
globalização da economia e dando especial ênfase à necessidade de colocar o utilizador
no centro do sistema de transportes, o que aliás se assume como a única perspectiva
inovadora deste documento em relação à política anteriormente traçada.
Resta-nos aguardar pela aplicação destas propostas preconizadas pela Comissão
Europeia. É, nosso desejo, que mais uma vez não se repita o fenómeno que tem sido
frequentemente observado no passado ao nível da Política Comum de Transportes:
- Prof. Werner Rothengatther -
(...) Green and White Papers have been published being very strong on
issues of environmental sustainability while the actual policy outcome was to foster
liberalisation policy, refrain from interventions and let the market take its
course.
agosto/2003
Fernando José
da Cruz Gonçalves,
Oficial da Marinha Mercante, Bacharel em Pilotagem (ENIDH - Escola Náutica Infante D.
Henrique), Licenciado em Gestão e Tecnologias Marítimas (ENIDH - Escola Náutica Infante
D. Henrique), Licenciado em Administração e Gestão Marítima (ENIDH - Escola Náutica
Infante D. Henrique), Pós-graduado em Gestão do Transporte Marítimo e Gestão
Portuária (ISEG - Instituto Superior de Economia e Gestão), Pós-graduado em Gestão do
Transporte Rodoviário de Mercadorias e Gestão Logística (ISEG - Instituto Superior de
Economia e Gestão).
Professor Adjunto do Departamento de Gestão e Logística da Escola Náutica Infante D.
Henrique, sendo responsável pela docência de disciplinas na área da Economia Marítima
e Portuária.
Consultor em Transportes, Portos e Logística em diversos projectos e
estudos realizados no âmbito de programas co-financiados pela Comissão Europeia.
Autor e co-autor de diversas publicações na área da Economia dos
Transportes.
fcgoncalves@oninet.pt
Esta página é parte integrante do www.guiadelogistica.com.br .