O EFEITO AVESTRUZ
1. A ILUSÃO DE QUE O PROFISSIONAL DE LOGÍSTICA É UM
SUPER-HOMEM
Quantos eventos, seminários, encontros técnicos e modelos afins reunem
mensalmente centenas de profissionais de logística a frente de renomados palestrantes? Em
todos, algo em comum: há sempre aquele palestrante que, orgulhosamente, apresenta uma
lista quase infindável de características atribuídas ao bom profissional de logística.
Algumas destas características são denominadas competências.
As competências são atributos associados ao perfil pessoal do profissional, tais como
flexibilidade, adaptabilidade, comprometimento com o negócio, senso de urgência /
priorização, sem mencionar outros tantos que o bom senso nos faz trazer a mente.
Outro grupo de características reúne as chamadas habilidades.
As habilidades (técnicas) são os conhecimentos específicos necessários a realização
de uma determinada atividade. Podemos citar, por exemplo, o conhecimento das regras e
procedimentos de importação, o uso de técnicas de previsão de demanda, o rearranjo de
layouts de armazéns para aumento de produtividade, e muitas outras.
Será que a exigência que o mercado impõe aos profissionais de logística
para que nós consigamos congregar estas características, competências e habilidades,
nos faz especiais? Nos faz um super-homens, como muitos dos palestrantes citados
anteriormente sugerem?
Será que o mercado é menos exigente com profissionais de outras áreas?
Do financeiro? De vendas ou marketing? De recursos humanos, qualidade ou engenharia? Ou
será que apenas IGNORAMOS o conjunto de competências e habilidadas exigidas dos
profissionais que atuam nestas áreas? Será que apenas ignoramos ou que nos recusamos a
ver? Neste caso, agimos como avestruzes, que tiram a cabeça do buraco apenas para ouvir
palestrantes que inflam nossos egos.
Sou firme na opinião de que cada profissional, de cada área de uma
empresa, é um super-homem.
2. PORQUE O PROFISSIONAL DE LOGÍSTICA ESTÁ
VALORIZADO?
Antes de tudo, ênfase deve ser dada a uma palavra do sub-título acima:
ESTÁ. Os profissionais de logística não SÃO valorizados apenas
ESTAMOS valorizados. Por um período, que pode ser longo se formos competentes, porém
muito curto se não tirarmos a cabeça-de-avestruz do buraco.
Por que estamos valorizados? A resposta é simples e pragmática: porque
podemos melhorar o resultado financeiro da empresas onde trabalhamos seja pelo
aumento de receita ou pela redução de custos e despesas. Hoje o profisional de
logística é aquele, dentro das organizações, que abraça o conjunto de habilidades e
competências mais adequado à tarefa de melhorar os seus resultados financeiros - seja
pelo indicador do capital de giro, do uso de ativos, do retorno sobre investimentos ou do
fluxo de caixa.
Para citar um exemplo recente, fiz uma apresentação em julho deste ano no
Comitê de Logística da Câmara Americana de Comércio em São Paulo com o título: A
ANÁLISE DE OPERAÇÕES ATRAVÉS DO EVA (ECONOMIC VALUE ADDED) COM A FINALIDADE DE
ADICIONAR VALOR AO NEGÓCIO PELO SUPPLY CHAIN MANAGEMENT. Título pomposo que, em bom
português, significa: O GERENCIAMENO LOGÍSTICO TRAZ DINHEIRO PARA A EMPRESA.
No entanto, dado o dinamismo que a vida corporativa nos impinge, como
podemos ter certeza de que passados alguns anos, nós, profissionais de logística, ainda
seremos aqueles com o conjunto de competências e habilidades que mais poderá contribuir
para a META das organizações (conceito META extraído do livro A Meta, de
Goldratt, onde a meta de uma empresa é GANHAR DINHEIRO)?
A resposta, novamente simples e pragmática, é: não podemos ter esta
certeza. Por isso devemos evoluir desenvolver competências e adquirir novas
habilidades. Se não o fizermos, outros certamente o farão.
3. A LOGÍSTICA NAO É MAIS ASSUNTO APENAS PARA OS LOGÍSTICOS
Citarei alguns exemplos.
Há cerca de dois anos, em treinamento ministrado pelo Cebralog, duas
empresas (setor de autopeças e alimentos) enviaram tanto profissionais de logística como
de áreas comerciais (vendas e pós-vendas). O que estava acontecendo? Os profissionais de
logística desenvolviam habilidades enquanto os profissionais das áreas comerciais
adquiriam novas habildades. Ou seja, os colegas das áreas comercias estavam ampliando o
portifólio de habilidades.
Há cerca de um ano, ao visitar uma empresa química, participei de uma
reunião para estruturar o formato e o conteúdo de um treinamento in-company para a
equipe de logística. Quantos profissionais de logística desta empresa estavam presentes?
Nenhum. Havia controlers e recursos humanos. Os controlers, por terem clara visão da
dimensão financeira da empresa, enxergavam onde o processo falhava onde havia
impacto no fluxo de capital, no gerenciamento de ativos (estoques). Neste exemplo fica a
mensagem de profissionais (no caso, controlers) que enxergam a logística de um ponto de
vista muitas vezes ignorados pelo próprio profissional de logística. Nós, logísticos,
nào temos esta habilidade, AINDA.
Cada vez mais profissionais de outras áreas buscam entender e estudar logística. Alguns
outros exemplos:
- Profissional de qualidade: quer entender de logística porque dizem que o
departamento de qualidade faz com que os estoques sejam alto, pois suas inspeções afetam
um tal de lead-time;
- Profissional de engenharia: quer entender de logística porque dizem que a estrutura do
produto faz dar pau num tal de MRP que, por sua vez
faz a produção parar. E por isso o estoque
aumenta. Hein!? Mas como?
- Profissional de finanças: quer entender de logística porque percebeu
que um projeto
envolvendo características puramente operacionais (infra-estrutura de armazenagem, frotas
e outros) pode ser visto como um projeto
de investimento, com ótimo retorno financeiro para a
empresa.
Podemos citar inúmeros outros cenários para as áreas acima, e listar
outras áreas. Mas o que o profissional de logística está fazendo para ampliar seu
portifólio de competências e habilidades? POUCO, muito pouco.
O profissional de logística considera seu mundo por demais complexo,
extremamente corrido e cheio de grandes responsabilidades. Não podemos dar atenção às
outras áreas. Entender (ou apenas ouvir) o que colegas de outras áreas fazem? Para que?
Pensar em adquirir competências e habilidades de outras áreas? De forma alguma
não temos tempo, não queremos e não precisamos. Será mesmo que não?
Enquanto nos vemos absolutos, outros profissionais aprendem nossas
ferramentas, assimilam nossos conceitos e crescem profissionalmente tornando-se mais
preparados para, um dia, assumirem a missão de GANHAR DINHEIRO para suas empresas. Então
eles ESTARÃO valorizados não nós.
Este efeito parece pouco importante aos olhos de profissionais que estão
nas fases iniciais de sua carreira. Mas a medida em que ganham mais responsabilidade, que
assumem posições hierárquicas de maior relevância, este aumento de conhecimento é
fundamental para continuar sua ascenssão profissional e mesmo para manter sua
empregabilidade.
Hoje as empresas já esperam de seus principais executivos, gerentes e
diretores, uma visão de negócio que vai muito além das habilidades técnicas cujo
escopo é formado por ferramentas para a área de logística.
4. O QUE DEVEMOS FAZER PARA NOS MANTERMOS VALORIZADOS
NO LONGO PRAZO?
Precisamos gerir nosso conhecimento de forma a mantê-lo diferenciado. Esta
gestão de conhecimento passa por várias estapas:
- identificar conhecimento;
- adquirir conhecimento;
- desenvolver conhecimento;
- partilhar conhecimento;
- utilizar conhecimento;
- reter conhecimento;
O detalhamento destas atividades seria por demais
extenso e não o convém fazer neste artigo. Podemos, no entanto, explorar algumas
oportunidades que vivemos no dia-a-dia.
Podemos e devemos aprender com nossos colegas pares de outras
áreas. O colega da engenharia, de vendas, de recursos humanos, da produção, do
marketing, da qualidade enfim, de qualquer área. Quais são suas competências e
habildades? Há sinergia entre o que fazem e o que fazemos? Onde esta esta sinergia? De
que forma podemos liderar o processo de construção de canais de comunicação e
cooperação interdepartamentais? Podemos extender esta visão ao relacionamento com
fornecedores e clientes, atuando sob o signo do Supply Chain Management (gestão da cadeia
de abastecimentos).
Há também o aprendizado pela busca, pela pesquisa. Certamente muitos já
ouviram falar de gerenciamento de riscos. Mas quantos realmente sabem o que significa?
Você já leu sobre o assunto? Já ouviu falar na Associação Brasileira de Gerenciamento
de Riscos?
E governança corporativa? Quem sabe o que significa? Tem empresas onde a
gestão da cadeia de abastecimento é tema central na estruturação de sua governaça
corporativa. Já conversou com alguém sobre o assunto? Visitou o site da Associação
Brasileira de Governança Corporativa?
Vou citar alguns temas que seguem este raciocínio:
- controladoria;
- economic value added;
- terceirização e quarterização;
- técnicas de negociação;
- avaliação financeira de projetos (ROI, TIR);
- marketing em canais de distribuição;
- gerenciamento de mudança;
- gerenciamento de projetos;
- gerenciamento de produtos, entre muitos outros.
5. COMO COMEÇAR?
Você deve estar se perguntando: e agora? Mal consigo concluir minhas
atividades diárias. Chego cedo, almoço rápido e saio tarde. Como vou gerir meu
conhecimento de forma a adquirir e desenvolver novas competências e habilidades?
Provavelmente você já o faz - porém este esforço pode estar direcionado
apenas para conhecimentos necessários em sua área de atuação ou em áreas próximas.
Busque entender, aos poucos, quando surgir a oportunidade, o que os colegas fazem. Busque
ler sobre algo que não conhece (não apenas aprofundar o que já sabe).
Em tempos de Olimpíadas, vale a dica: é importante lembrar-se que está
não é uma corrida de 100 metros mas uma maratona é preciso ter persistência e
visão de longo prazo.
agosto/2004
Alexandre Oliveira,
Diretor do Grupo Cebralog. Professor da USP / Pós-graduação em Logística
Empresarial. Chairperson do Comitê de Comércio e Logística da Câmara Americana de
Comércio (Amcham).
editorial@cebralog.com
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