RESUMO
Este trabalho trata da proposição de um processo metodológico a ser
empregado na etapa de planejamento de rodovias. Estuda-se a aplicação de uma análise
multicriterial para a seleção de um melhor traçado para a futura rodovia, levando em
consideração não apenas questões geométricas de engenharia, historicamente utilizadas
para a definição de diretrizes rodoviárias, mas agregando quesitos cada vez mais
importantes para a sociedade moderna, como as questões ambientais. Realizou-se a
aplicação desta metodologia ao estudo de alternativas de traçado de um trecho do
Rodoanel Mario Covas, na Região Metropolitana de São Paulo, através de entrevistas com
diversos atores da sociedade e aplicação do Método de Auxílio à Tomada de Decisão
denominado Método de Análise Hierárquica MAH (Analytic Hierarchy Process
AHP).
ABSTRACT
This paper deals with the proposition of a methodological process to be
used in the planning phase of roads. The paper refers to the development of a
multicriterial assessment for the selection of a better route for a future highway
considering not only geometrical engineering topics, often used for highways definitions,
but including topics important for the modern society, such as the environment ones. This
model was applied in a case study related to the study of alignment alternatives of the
São Paulo Ring Road, through interviews with different agents and the application of the
Analytic Hierarchy Process AHP.
A crescente
preocupação com as questões ambientais, cujos objetivos básicos estão centrados na
busca do desenvolvimento sustentável, torna cada vez mais evidente a necessidade de
avaliações das alternativas de traçado de um projeto rodoviário, realizadas com
coerência e qualidade. Enfocar os aspectos ambientais desde a etapa de estudo de
alternativas de traçado é considerado, por técnicos e consultores de países
desenvolvidos, como o mais correto e econômico caminho para assegurar o bom
desenvolvimento de um empreendimento rodoviário (McCormack, 2001).
A tomada de decisão para a definição da melhor diretriz de traçado para
uma futura rodovia pode ser considerada como uma das etapas mais importantes e delicadas
para o seu sucesso. Assim, um empreendimento rodoviário, caracterizado pela sua
multidisciplinaridade, necessita passar por uma análise criteriosa, fundamentada em um
método multicriterial de auxílio à tomada de decisão que assegurará ao empreendedor,
e aos demais atores da sociedade participantes no processo de implantação, uma
ordenação das alternativas de traçado propostas, indicando a solução mais adequada
para que esta posteriormente obtenha o Licenciamento Ambiental, seja detalhada em projeto
e implantada com sucesso (Lisboa, 2002).
Neste trabalho
optou-se pela utilização de um método multicriterial de auxílio à tomada de decisão
de autoria do Prof. Thomas Saaty da Universidade da Pensilvânia, denominado Método de
Análise Hierárquica MAH, do inglês Analytic Hierarchy Process AHP,
ensejando inclusive uma avaliação estratégica e preliminar de impactos
sócio-ambientais. Nas áreas de transporte e meio ambiente observa-se a utilização do
MAH em diversas referências bibliográficas, tais como: Rabbani; Rabbani (1996); DERSA
(2000); Ramanathan (2001); Zhu; Dale (2001); Gomes; Lima (1991); Kalamaras et al. (2000);
entre outras.
O MAH baseia-se inicialmente em uma estruturação hierárquica dos objetivos,
critérios/indicadores e alternativas consideradas no estudo. Posteriormente, conforme os
grupos determinados na estrutura hierárquica, realizam-se comparações entre pares de
critérios/indicadores, quanto à importância de cada critério/indicador em relação ao
objetivo do trabalho, estabelecendo matrizes de comparações paritárias. Através da
técnica do autovetor (Saaty, 1980), o MAH calcula os pesos locais e globais para cada
critério/indicador nos vários níveis hierárquicos e em relação às alternativas em
estudo. Assim, torna-se possível estabelecer uma ordenação das alternativas e decidir
pela qual escolher como a mais adequada neste processo de decisão.
Saaty (1990) apud Morita
(1998) considera que a tarefa mais importante na análise de decisão é a escolha dos
fatores relevantes para a decisão. Assim, buscando uma coerência teórica condizente com
as reais necessidades para a tomada de decisão na avaliação e seleção de alternativas
de traçado de rodovias, o modelo proposto por Lisboa (2002) foi desenvolvido em três
etapas, conforme a seguir:
Numa 1ªetapa, analisou-se 7 (sete) experiências anteriores, onde a seleção de
alternativas rodoviárias foi realizada levando em consideração aspectos ambientais.
Esta análise permitiu a escolha dos critérios e indicadores mais significativos, ou
seja, os que melhor representassem os diversos aspectos que influenciam direta e
indiretamente na qualidade e no sucesso de um empreendimento rodoviário. A bibliografia
pesquisada foi: Passounneau; Gunnerson; Miller (1975); The Consulting Engineer (1972);
Duttenhoeffer; Padwal; Kirkyla (1976); Department of Transport (1982); Lober; Wilson
(1988); DERSA (1999); Kalamaras et al. (2000).
A partir da análise destes estudos também foi possível estabelecer os
critérios e indicadores considerados como suficientes para fundamentar a metodologia
proposta neste trabalho, considerando multicritérios dispostos em níveis hierárquicos,
conforme apresentado na tabela 1.
Considerando as peculiaridades do MAH e do software disponível, a
definição e organização dos critérios e indicadores selecionados deveria realizar-se
de tal forma que se reduzisse a quantidade de julgamentos entre pares de
critérios/indicadores (85 julgamentos neste caso), a fim de evitar morosidade e
desinteresse e, que estes estivessem dispostos em uma estrutura hierárquica de no máximo
quatro níveis. Cabe destacar que para um conjunto de n indicadores, deve haver um total
de n.(n-1)/2 julgamentos comparativos.
Assim, em uma 2ª etapa, adotando a técnica denominada brainstorming, os
objetivos, critérios e indicadores apresentados na tabela 1 (1ªetapa) foram analisados
por técnicos especialistas da área de engenharia rodoviária e da área ambiental. O
resultado desta etapa pode ser verificado na tabela 2 a seguir, observando-se que o
número de julgamentos totais foi reduzido para 36 (trinta e seis). Desta forma, este
conjunto de critérios e indicadores passa a ser considerado como um Conjunto Básico de
fatores de análise para o estudo proposto.
Tabela 1: Conjunto Inicial de Critérios e Indicadores |
|||||
CRITÉRIOS |
INDICADORES |
UNIDADES |
|||
Nível 1 |
Nível 2 |
Nível 3 |
Nível 4 |
Nível 5 |
|
ASPETOS
ECONÔMICOS |
custo /
benefício |
custo de implantação (sem considerar desapropriação e reassentamento) = custo
de construção |
R$ |
||
ASPECTOS
CONSTRUTIVOS |
aspectos
geotécnicos |
% Extensão em unidades homogêneas |
km |
||
ASPECTOS
OPERACIONAIS E DE SEGURANÇA DE TRÁFEGO |
tráfego de
passagem |
% Extensão em rampa máxima |
% |
||
% Extensão em raio mínimo |
% |
||||
sinuosidade ou tortuosidade |
°/km |
||||
tráfego local |
nº de vias locais atravessadas e preservadas |
rodovia; estrada secundária; via urbana estrutural; via urbana arterial |
un |
||
pedestres |
% Extensão em área urbanizada |
% |
|||
ASPECTOS
AMBIENTAIS |
meio antrópico |
interferência na fase de Obra |
Nenhuma;
pouca; moderada; excessiva |
||
desenvolvimento regional/urbano |
relação com o Plano Diretor |
sim não |
|||
ruptura social / relação com o viário local |
dispositivos de passagem superior e inferior previstos |
un |
|||
% Extensão em área urbanizada |
un |
||||
uso do solo |
área urbanizada; favela/invasão |
un.habitacionais |
|||
mineração; área industrial; área desocupada; agricultura; pecuária |
m² |
||||
situação fundiária |
desapropriação |
área pública; área privada vazia ou pouco ocupada; área privada densamente
ocupada |
unidades
habitacionais |
||
reassentamento |
área pública área privada |
un.habitacionais |
|||
meio biótico |
cobertura do solo |
reflorestamento; campos; capoeiras; brejo; matas |
m² |
||
matas ciliares |
m |
||||
áreas legalmente protegidas (APP, APM e sítios arqueológicos) |
m² |
||||
meio Físico |
poluição da água |
cursos dágua atravessados (córregos, rios e lagos) |
un |
||
poluição do ar |
% Extensão em rampa máxima |
% |
|||
ruídos e vibrações |
% Extensão em zonas iso-sonoras |
% |
|||
Intrusão Visual |
Impacto na paisagem de fora da rodovia |
unidades
habitacionais a menos de 300m da faixa de Domínio |
|||
Em uma 3ª etapa,
realizou-se a definição do Conjunto Final de Critérios e Indicadores de análise e
avaliação, a partir do conjunto desenvolvido para a 2ª etapa e considerando a
disponibilidade de dados para aplicação do modelo, pois a fonte de dados para o estudo
de caso em questão (DERSA, 1999) não contemplava integralmente os critérios e
indicadores tal como definidos.
O modelo proposto foi testado em três segmentos do trecho Norte do
Rodoanel Mário Covas, com a utilização dos critérios e indicadores da tabela 3 a
seguir. Esta configuração final de critérios e indicadores define uma quantidade total
de 27 (vinte e sete) julgamentos.
Tabela 2: Conjunto Básico de Critérios e Indicadores
CRITÉRIOS |
INDICADORES |
UNIDADES |
||
Nível 1 |
Nível 2 |
Nível 3 |
Nível 4 |
|
ASPECTOS ECONÔMICOS |
custo
de implantação (obra + desaprop. + reassentamento + operacional) |
R$ |
||
ASPECTOS CONSTRUTIVOS |
obras en superfície |
áreas favoráveis |
% de extensão em superfície |
|
áreas com algumas restrições |
% de extensão em superfície |
|||
áreas com severas restrições |
% de extensão em superfície |
|||
obras especiais |
pontes e viadutos |
quantidade |
||
túneis |
% de extensão em túnel |
|||
contenções |
área em m² |
|||
ASPECTOS OPERACIONAIS E DE SEGURANÇA DE TRÁFEGO |
tráfego de passagem |
raio mínimo |
% de extensão em raio mínimo |
|
rampa máxima |
% de extensão em rampa máxima |
|||
tráfego local |
interseções |
quantidade |
||
passagens superiores e inferiores |
quantidade |
|||
vias marginais coletoras |
% de extensão |
|||
tráfego de pedestres |
passarelas previstas |
quantidade |
||
ASPECTOS AMBIENTAIS |
impactos no uso do solo urbano |
desapropriações de unidades produtivas |
área em m² |
|
desapropriações de residências |
unidades habitacionais |
|||
reassentamento populacional |
n° de famílias |
|||
impactos no uso do solo rural |
travessia de áreas de preservação |
vegetação nativa arbórea desenvolvida |
área em m² |
|
vegetação nativa pouco desenvolvida |
área em m² |
|||
travessia de áreas de reflorestamento, pastagem e agricultura |
área em m² |
|||
travessia de Parques em nível |
área em m² |
|||
travessia de áreas degradadas |
área em m² |
|||
impactos no meio físico |
interferências com recursos hídricos |
nº de cursos dágua |
||
impactos na qualidade do ar |
% de extensão em rampa máxima |
|||
ruídos |
área urbanizada em m² sujeita a ruídos entre 50dB(A) e 100dB(A) |
|||
Tabela 3: Conjunto Final de Critérios e Indicadores
CRITÉRIOS |
INDICADORES |
UNIDADES |
|
Nível 1 |
Nível 2 |
Nível 3 |
|
ASPECTOS ECONÔMICOS |
custo de implantação (custo de obra + custo de desapropriação + custo de reassentamento + custo
operacional) |
R$ |
|
ASPECTOS CONSTRUTIVOS |
obras em superfície |
áreas favoráveis |
% de extensão em superfície |
áreas com algumas restrições |
% de extensão em superfície |
||
áreas com severas restrições |
% de extensão em superfície |
||
obras especiais |
pontes e viadutos |
quantidade |
|
túneis |
% de extensão em túnel |
||
ASPECTOS OPERACIONAIS E DE SEGURANÇA DE TRÁFEGO |
tráfego de passagem |
raio mínimo |
% de extensão em raio mínimo |
rampa máxima |
% de extensão em rampa máxima |
||
tráfego local |
nº de vias locais interrompidas/km |
||
tráfego de pedestres |
% de extensão em área urbanizada |
||
ASPECTOS AMBIENTAIS |
impactos no uso do solo urbano |
desapropriações de unidades produtivas |
área em m² |
desapropriações de residências |
unidades habitacionais |
||
reassentamento populacional |
nº de famílias |
||
impactos no uso do solo rural |
vegetação nativa |
área em m² |
|
travessia de áreas de reflorestamento, pastagem e agricultura |
área em m² |
||
travessia de Parques em nível |
área em m² |
||
impactos no meio físico |
interferências com recursos hídricos |
nº de cursos dágua/km |
|
impactos na qualidade do ar |
% de extensão em rampa máxima |
||
ruídos |
área urbanizada em m² sujeita a ruídos entre 50dB(A) e 100dB(A) |
||
Os segmentos analisados
integram o Rodoanel Mário Covas, empreendimento rodoviário com objetivos múltiplos,
cuja função principal é a de desviar os veículos de passagem e de cargas do perímetro
urbano da região metropolitana de São Paulo. O Rodoanel deverá atender tanto a demandas
de transporte de cargas, quanto de transporte de passageiros, podendo canalizar viagens
exclusivamente rodoviárias (com origens e destinos fora da RMSP) ou viagens internas (com
origem e destino na RMSP). Apresenta, ainda, um grande potencial como elemento
estruturador do uso e ocupação do solo e do processo de expansão urbana (DERSA, 1998).
Tabela 4: Quantitativos dos critérios e indicadores definidos para o Estudo de Caso
|
INDICADOR |
UNIDADE |
Segmento 1 |
Segmento 2 |
Segmento 3 |
|
|||||||||||||||||||||||
|
alternativa 1 (Verde) |
alternativa 2 (Vermelha) |
alternativa 3 (lilás) |
alternativa 4 (laranja) |
alternativa 1 (verde) |
alternativa 2 (vermelha) |
alternativa 3 (lilás) |
alternativa 4 (laranja+lilás) |
alternativa 1 (verde) |
alternativa 2 (vermelha) |
alternativa 3 (azul) |
||||||||||||||||||
Custo de
implantação |
R$x1.000,00 |
376,1 |
488,8 |
467,9 |
400,1 |
90,2 |
81,5 |
109,0 |
93,2 |
91,8 |
127,9 |
104,2 |
|
||||||||||||||||
Áreas
Favoráveis |
% de extensão
em superfície |
0% |
0% |
0% |
0% |
0% |
0% |
0% |
0% |
0% |
0% |
0% |
|
||||||||||||||||
Áreas com
algumas restrições |
% de extensão
em superfície |
23% |
6% |
15% |
46% |
30% |
57% |
63% |
62% |
42% |
62% |
61% |
|
||||||||||||||||
Áreas com
severas restrições |
% de extensão
em superfície |
19% |
16% |
7% |
13% |
70% |
43% |
37% |
38% |
58% |
38% |
39% |
|
||||||||||||||||
Pontes e
Viadutos |
unidades |
1 |
0 |
0 |
|||||||||||||||||||||||||