Logística Zero, Fome Dez

Não há como não louvar as intenções do governo em levar à camada da população abaixo da linha da pobreza condições mínimas alimentares. Um país como o nosso, que se encontra entre as dez maiores economias do mundo, não pode, sob hipótese alguma, deixar seus filhos à mingua, sem condição nenhuma de alimentação.
No entanto, não se pode deixar de observar um detalhe intrigante: é impossível manter programas duradouros do tipo Fome Zero ! Além dessa impossibilidade, mais que dar alimentação é importante gerar condições para que a população pobre gere seu próprio sustento e tenha com o que se orgulhar sobre isso. Sequer é preciso dizer que criar condições passa pela geração de emprego.
Para isso é fundamental implantar projetos produtivos e, mais importante ainda, criar condições adequadas para que a produção possa ser escoada, de forma que possa chegar ao consumidor final com preço e qualidade adequados, tornando-se também competitiva no mercado externo.
Se o país consegue tal feito, milhares de empregos são criados, reduzindo os gastos do governo com programas do tipo Fome Zero. O problema é o governo entender sobre o que empresários e instituições de transporte e logística têm alertado nos últimos anos. Entre os países em níveis razoáveis de desenvolvimento, o Brasil é um dos mais carentes em infra-estrutura logística. Não é por acaso que, apesar do volume das exportações ter batido os US$ 50 bilhões anuais, o país ainda engatinha em relação aos que se encontram em seu mesmo nível de desenvolvimento quando o assunto é comércio exterior.
A questão da infra-estrutura (estradas sem conservação, custos portuários ainda altos apesar de algumas melhorias, ferrovias inadequadas, transporte fluvial incipiente entre outros problemas) é grave. Soma-se à ela outros problemas relacionados com o mercado e com as operações de transporte e logística de uma forma geral. O nó em que se encontram as mazelas do setor está difícil de ser desfeito.
Aproveitando-se da falta de qualquer regulamentação, a concorrência despreocupada com qualidade e de baixa performance fez do mercado o seu reinado. O resultado não poderia ser outro: as perdas no processo logístico se agigantam a cada dia. Há quem fale em algo em torno de US$ 150 bilhões anuais. Evidentemente não dá para conferir se é nesse valor, mas elas existem e inegavelmente são em alto grau. Decorrem basicamente da má estocagem, da falta de embalagem adequada, de trajetos desastrosos por via rodoviária e da inadequação de sistema de armazenagem.

Não é de hoje que se sabe que, de cada dúzia de banana colhida, apenas 3 unidades chegam ao consumidor final. Se isso acontece com a banana, imagine o fenomenal volume desperdiçado quando se soma a ineficiência ocorrida na movimentação de outros produtos, principalmente aqueles que exige uma logística de distribuição mais complexa. Não deixe de imaginar ainda o quanto esse desperdício tem contribuído para o aumento da fome no Brasil.
Para sair de uma situação como essa, o país precisa implantar melhorias em estradas, portos, aeroportos, ferrovias, enfim, em todo e qualquer meio de escoamento de produtos, revendo dessa forma toda a sua política de transporte. Precisa estabelecer programas que levem à renovação da frota
de veículos de cargas e implante uma legislação específica para o setor, que, sem dúvida, será importante para dar rentabilidade aos operadores, melhorando as suas atividades e proporcionando um melhor aproveitamento dos produtos transportados, o que, sem dúvida, colocará um fim no processo de logística zero, fome dez, em que o país se encontra.

abril/2003

Carlos Alberto Mira,
Presidente da Aslog - Associação Brasileira de Logística
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