Vender - a arte que faz o mundo se mover
Produzir e vender. Quem vem antes? Você
vai vender tudo o que eu produzir, diz o diretor industrial. Negativo,
retruca o diretor comercial, é você que vai produzir tudo o que eu vender.
Cada dia está mais claro que o segundo tem mais razão. É ele, afinal, que tem contato
com o cliente (atualmente chamado de mercado) e é quem sabe, portanto, o que é que ele
quer, e quanto, e por quanto, e para quando.
Já cruzamos a longa era feudal, a industrial e agora estamos na chamada era do
conhecimento. Indiferente a essas variantes históricas, só há um homem que
continua incólume, com seu emprego garantido, e esse é o vendedor.
Na atualidade sofisticada do mundo contemporâneo, globalizado, informatizado, informado,
o vendedor deixou de ser o patrocinador do escambo e passou a ser o catalisador do
progresso.
Vendedor que honra o nome não vende, realiza sonhos. E se orgulha disso. O corretor de
imóveis resolve o problema da moradia, bem primário e imprescindível. É um mágico que
ajuda a encontrar aqueles tijolos arranjados de tal maneira a permitir o abrigo, o
controle das intempéries e o afastamento dos inimigos, e os faz coincidir com o desejo e
com a capacidade de pagamento de seu cliente.
O vendedor de automóveis nos dá rodas e a conseqüente mobilidade, o de seguros,
sossego, o de passagens, viagens, o de roupas, calor e vaidade, e assim por diante. O
vendedor vende mais do que o produto explícito, vende o valor tácito. Apresenta
soluções para ansiedades de consumo. É um terapeuta pragmático.
O mais incrível, e que não combina em absoluto com a missão do vendedor,
independentemente de sua área de atuação, é uma freqüente baixa autoestima. Em nosso
país, diferentemente dos Estado Unidos, a capital mundial do consumo e, portanto da venda
e, portanto, dos vendedores, parece que a profissão não é valorizada. É comum o
sentimento de que se é vendedor porque não se conseguiu ser outra coisa, quem sabe um
profissional liberal.
Trata-se de uma postura mental mesquinha e altamente prejudicadora dos resultados, que
dependem, sim, de uma autoestima elevada. Pergunto eu: como ter em baixa sua
autoapreciação considerando que você é a pessoa capaz de resolver o problema de seu
cliente e melhorar a vida dele, criando felicidade? Como pode ser infeliz o catalisador da
felicidade? E ainda há que considerar que o vendedor não tem um cliente, tem dois. O
dono do produto e o dono do dinheiro. A troca de mãos, o que é patrocinada pelo
vendedor, satisfaz, portanto, a dois senhores. Alegria dobrada!
O que é um vendedor (com V maiúsculo) olhado de dentro para fora? É alguém que entende
do produto? Pode até ser, mas sua especialidade não é essa. Ele é alguém que entende
de gente. E é aí que mora a beleza. Gente tem necessidades, ambições, vaidades, e
também inseguranças, limitações, medos. O vendedor lida com todos esses sentimentos
como o pintor que joga as tintas da palheta na tela, que representa o cenário da venda.
Cria harmonia, equilíbrio, solução. Transforma o útil no belo, aumentando-lhe a
utilidade e justificando-lhe a existência.
Vendedor se comunica. Sempre lembrando que a comunicação tem dois sentidos. O verdadeiro
comunicador é aquele que sabe escutar. Só então decodifica a informação recebida e a
transforma em resposta, em argumento. Vendedor não força venda, encontra solução para
os problemas das necessidades. Ouvir, refletir, argüir, esclarecer, organizar, acalmar,
situar, argumentar, resolver e então vender.
Maravilhosa essa tal de relação comercial, quando se tem em mente que ela é uma
variante da relação humana: percepção, senso de oportunidade, empatia, respeito,
rapport, aclimatização, comunicação. Negócio fechado!
Eugenio Mussak,
Médico fisiologista, zoólogo, professor e escritor
www.eugeniomussak.com.br
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