O paradigma da automação

A necessidade que as empresas têm nos últimos anos em relação à melhoria contínua nos seus níveis de qualidade, produtividade e competitividade passa também pelo desenvolvimento de soluções inovadoras que envolvem um maior ou menor nível de automação.
Porém, quando se trata de automação, muitas empresas investem em soluções sem a adequada análise de viabilidade técnica e econômica.

Introdução

A constante evolução do ser humano o conduz a um processo gradual de melhorias, sejam elas do seu ambiente de trabalho, de qualidade de vida, de eliminação de atividades desgastantes ou que não agreguem valor ou produtividade. Enfim, a natureza do ser humano em buscar continuamente uma condição melhor para se viver, que faz com que desenvolva soluções capazes de substituir o esforço humano mental ou físico.
Assim, o que se pode observar no mercado é uma intensa proliferação de soluções automatizadas que, segundo os seus criadores, causaram ou ainda causarão ganhos significativos em aplicações específicas para as quais as mesmas foram desenvolvidas.
O desenvolvimento de diferentes aplicações de sistemas de automação no mercado e o "sucesso" adquirido por algumas empresas, levaram muitas outras a concluírem que a automação seria uma das grandes armas na disputa pelo mercado.

Automação na logística
Com a valorização da logística como estratégia de competitividade, a automação nesta área foi intensa. As soluções atualmente apresentam-se em duas grandes famílias:
- Automação do fluxo de materiais e
- Automação do fluxo de informações

Fluxo de materiais Fluxo de informações
- Espaços (edifícios, armazéns, etc.);
- Equipamentos de movimentação (veículos, transportadores contínuos);
- Equipamentos de estocagem (estanterias, mezaninos, etc.);
- Embalagens e unitizadores;
- Diversos (balanças, equipamentos de segurança, etc.).
- Tecnologia da informação;
- Software de planejamento;
- Software de gestão;
- Software de supervisão;
- Solução para coleta e transmissão de dados;
- Gerenciamento de projetos.


Paradigmas da automação
Em função da abrangência característica da logística e do rápido desenvolvimento de soluções automatizadas nesta área, muitas empresas ficaram sem condições de desenvolver análises adequadas de viabilidade para investimentos dessa natureza. Desta forma, nos últimos anos, pôde-se observar uma série de investimentos que caracterizaram-se como experiências isoladas; algumas com sucesso e outras, não.
Essas experiências caracterizadas pela falta de análises adequadas por parte das empresas, estabeleceram os paradigmas da automação que agora afetam significativamente os investimentos nesta área.
Como exemplo, podemos citar os dez paradigmas da automação na logística:

1. Paradigma da produtividade - Acredita-se que todo e qualquer tipo de solução automatizada traga mais produtividade ao processo.
Isso não é necessariamente verdadeiro, pois análises detalhadas de alguns processos simples e manuais são, em muitos casos, mais eficientes que soluções automatizadas.

2. Paradigma do investimento - Acredita-se que todo e qualquer tipo de solução automatizada é cara e, desta forma, a empresa não recuperará mais o investimento feito inicialmente. Esse tipo de abordagem mostra a baixa qualidade de análise de viabilidade que a empresa fez, pois muitos estudos detalhados mostram que mesmo soluções de alto investimento inicial podem propiciar o retorno do investimento em menos de um ano.

3. Paradigma da concorrência - Lamentável este paradigma, mas ainda existem empresas que acreditam que a solução automatizada desenvolvida pela concorrência é a melhor solução para o seu negócio.

4. Paradigma da matriz - Semelhante ao da concorrência: acredita-se que a solução adotada pela matriz deve ser a melhor solução para suas filiais.

5. Paradigma do medo - Por falta de conhecimento, alguns profissionais têm receio de decidir por soluções automatizadas e fracassarem, comprometendo seus cargos.

6. Paradigma da obsessão - Em viagens de estudos, visitas a feiras técnicas e conhecimento de outras empresas, algumas pessoas desenvolvem verdadeiras obsessões por determinados tipos de equipamentos automatizados, softwares, etc. Nestes casos, a análise de viabilidade é totalmente ignorada ou feita de forma superficial.

7. Paradigma da independência - Acredita-se que todo e qualquer tipo de solução automatizada traga total independência em relação a pessoas. Muitas empresas querem investir em automação para se livrarem dos erros das pessoas e da necessidade de treiná-las. No entanto, é preciso lembrar que sistemas automatizados ainda não possuem a capacidade (instinto, etc.) que as pessoas capacitadas têm.

8. Paradigma da redução de custo operacional - Algumas empresas não percebem que há casos em que trocam-se várias pessoas não-capacitadas que custam pouco, por um número relativamente menor, de pessoas capacitadas, a custos superiores. Isto não quer dizer que é melhor trabalharmos com muitas pessoas não-capacitadas, mas sim que, muitos casos, os custos operacionais (que não envolve apenas mão-de-obra) são aumentados com a automação.

9. Paradigma da concorrência - Acredita-se que todo e qualquer tipo de solução automatizada traga uma complexidade tão grande no processo que acabará prejudicando, o que não é verdade.
Em muitas empresas, quem cria essa complexidade do processo são as próprias pessoas que, pelo fato de não possuírem um sistema automatizado para disciplinar as suas atividades, cometem erros, comprometendo o processo, por mais simples que ele seja. É importante citar que, antes de automatizar, precisamos simplificar os processos ao máximo.

10. Paradigma dos indicadores - A melhoria de desempenho obtida em outras empresas por meio de automação na logística, não é garantia de melhoria dos seus indicadores, pois não é válido pressupor que o seu desempenho em relação a estes indicadores esteja no mesmo nível de outras empresas.

Existem muitos outros paradigmas relacionados com a automação na logística, porém os apresentados acima caracterizam a maior parte deles.

Conclusão

Como se sabe, muitas empresas nem sequer iniciaram um processo de automação na logística; porém, a evolução tecnológica que a humanidade possui é muito grande e a globalização da economia levará grande parte dessas empresas rumo à automação. Lembrando que os paradigmas não são necessariamente ruins, o mais importante nesse ambiente é deixar nossos cérebros livres dos paradigmas e posturas contrárias ou favoráveis à automação. Caso contrário, o simples fato de defender ou não a automação poderá comprometer as oportunidades que poderão ser exploradas em nossos negócios.

fevereiro/2002

Eduardo Banzato,
Gerente da IMAM Consultoria Ltda., de São Paulo.
Tel. (0--11) 5575 1400 
  imam@imam.com.br

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