Afinal, quem é que manda?

O ser humano de uma maneira geral gosta de mandar em alguém. No mundo corporativo isto fica muito mais acentuado. Do chefe dos faxineiros até o presidente, todos os chefes/gerentes orgulham-se e vangloriam-se de ter subordinados. Na maioria das vezes, aquela conversa de que "trato do mesmo jeito na empresa, do faxineiro ao presidente", é pura conversa fiada.
Já vi muita gente falando isto, só que na prática não acontecia.
Lembro-me que numa empresa que trabalhei, durante o ano inteiro o gerente administrativo era uma pessoa tida por todos como antipático e falso, pois só cumprimentava nos corredores e elevadores, gerentes e diretores, até puxando conversa sobre o tempo e futebol. Coitados dos faxineiros; eram quase humilhados. Não eram simplesmente ordens de serviço e sim, esculachos na frente de todos.
Em um final de ano, na festa de confraternização da empresa em uma churrascaria, este mesmo gerente aproveitando a presença de todos os gerentes e diretores, no ápice da festa aproveitou que alguns dançavam, pegou um faxineiro e foi dançar com ele em cima de uma mesa. Quis fazer uma média com os superiores do tipo "Viu como sou popular e querido". Lembro-me que o faxineiro saiu cuspindo fogo de raiva. Não adiantou muito a cena, poucos meses depois este gerente foi desligado da empresa.
Sabendo que o ser humano gosta de ser chefe, muitas empresas criam no seu organograma uma infinidade de seções e sub-seções. Às vezes um chefe de seção tem apenas dois subordinados e ganha pouco mais que estes, mas a satisfação de ser chefe deixa esta pessoa super comprometida com a empresa e altamente responsável. Os bancos adotam muito esta prática. Tem um banco dos considerados "grandes", que faz tão bem isto, que apesar de ter fama de pagar mal, consegue ter funcionários com muitos anos de casa.
Tenho um amigo que entrou aos 18 anos para ser caixa de banco. Um ano depois já era chefe dos caixas e se orgulhava disto, principalmente de ter a chave do cofre de sua agência. Perguntava a ele por que não prestava vestibular. Ele respondia que não dava tempo, pois ao fechar a agência tinha que acompanhar o fechamento de todos os caixas, o que demorava muitas vezes até às 20 horas, já que sempre dava diferença de não bater os valores e tinha que conferir um a um os lançamentos. Fora isto, ganhava bem pela idade que estava e dizia não poder desprezar este emprego.
Quando estava com 26 anos, o banco mandou-o embora e substituiu-o pelo seu imediato na escala hierárquica, que ganhava bem menos. Conclusão: não conseguiu mais um bom emprego, tinha experiência apenas de banco, o que não dava nenhum diferencial e o pior, não tinha um curso superior. Mesmo se formando após os 30 anos, nunca mais retomou uma carreira profissional ascendente.
Em outra ocasião, estava em uma reunião na sala do gerente geral, de um grande grupo industrial, que tratava por telefone um importante negócio para a empresa. O superintendente já tinha pedido duas vezes para a secretária do gerente geral chamá-lo para sua sala. Só que como estava no meio da ligação e negociação, não podia atender de imediato. O superintendente veio até a sala e mandou o gerente geral largar tudo que estava fazendo e vir até a sala dele imediatamente. Isto na presença de todos.
Acho que o fato de estar hierarquicamente acima de outros deixa o ser humano de uma maneira geral se sentir arrogante, autoritário e intangível. Mas é um engano de conduta, pois ninguém é melhor do que ninguém e muito menos insubstituível na sua função.
Vi o presidente no Brasil de uma mega multinacional, ser mandado embora da empresa, por um diretor que veio da matriz, especialmente para isto. O motivo: A sua marca ter ficado bem para trás dos concorrentes, ao definir uma estratégia de conquista de novos clientes, que não deu nada certo e consumiu altos investimentos.
Hoje em dia com o mercado tão competitivo, teoricamente o único que está livre de achar que é o dono da situação e fazer o que bem entende, passando por cima dos subordinados, é o proprietário da empresa. Mas mesmo assim não estará nem um pouco garantido, pois a qualquer momento seus clientes/mercado poderão lhe "derrubar". Se isto acontecer, também não será novidade, pois está cheio de empresas no mercado, onde uma cooperativa de funcionários assume o controle da empresa, negocia as dívidas e passa a fazer sua gestão.
Como podem ver, sempre vai ter esta dúvida: Afinal, quem é que manda?

junho/2002

Marcos Valle Verlangieri,
Diretor da Vitrine Serviços de Informações S/C Ltda., empresa que criou e mantém o
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