Em fevereiro, vimos o primeiro artigo que descrevia as
"Alternativas de Transporte" sob o ponto de vista da distribuição da
matriz de transportes no Brasil e no Estado de São Paulo.
Foi também abordado alguns assuntos do PDDT-Plano Diretor de
Desenvolvimento dos Transportes (elaborado pelo Dersa-Secretaria de Transportes
do Estado de São Paulo), que propõe a necessidade de uma nova matriz considerando uma
projeção de crescimento dos transportes para os próximos 20 anos.
Alguns ítens apontados pelo PDDT:
Óbviamente, pela importância do Estado de São Paulo no contexto da Federação, não precisaremos esperar 20 anos para avaliar a extensão destes números e os tipos de problemas que acarretarão para a economia estadual e consequentemente para a economia nacional se a atual matriz de transportes continuar da forma que está. Por isso, a matriz precisará e deverá ser alterada para fazer frente à demanda de carga atual e futura, de modo a permitir o desenvolvimento e o crescimento dos transportes sem surpresas e sobressaltos para todos, principalmente no que diz respeito aos custos logísticos.
Diante disso, relembremos a distribuição da carga por modal no Estado de
São Paulo:
RODOVIÁRIO
Podemos imaginar a situação dos transportes se projetarmos na proporção acima um aumento do volume de carga de 93%. Certamente será inviável!
O PDDT não aponta apenas a situação atual, as previsões e expectativas para os próximos 20 anos, mas apresenta também propostas técnicas para resolver os problemas atuais e futuros. Vejamos algumas:
Aumentar a oferta do transporte ferroviário.
Efetivar a construção do Ferroanel.
Ter menos dependência do transporte rodoviário.
Maior união entre os diversos modais.
Partindo desse princípio, este artigo propõe explorar na prática o que de fato já existe em termos de transporte ferroviário o qual já está contribuindo para a melhoria da distribuição das cargas por modal, proporcionando redução de custos e refletindo positivamente na qualidade e na segurança do transporte em geral.
Surgem, entretanto, algumas questões:
Quais são as alternativas ferroviárias existentes e como podemos utilizá-las?
Qual perfil de carga é adequado para usufruir dessa logística?
Será necessário proceder mudanças na logística interna de modo a ajustá-la ao transporte ferroviário, ou vice-versa?
Será necessário trocar efetivamente um modal pelo outro?
Devemos esperar mais alguns anos para avaliar a evolução do transporte ferroviário e identificar oportunidades para uma nova estratégia logística?
Estas e muitas outras questões já podem ser respondidas.
INFRAESTRUTURA
Inicialmente, para avaliarmos uma alternativa logística é necessário conhecer e entender a infraestrutura de transportes, sua situação e perspectivas operacionais.
Podemos conceituar a infraestrutura de transportes como sendo:
MULTIMODAL
INTERMODAL
Multimodal
porque considera o uso dos diversos modais de transporte, ou seja:Intermodal
porque considera o uso dos diversos sistemas que promovem o intercâmbio entre os modais, tais como:Esta infraestrutura existe, está em operação e em condições de proporcionar as alternativas que se ajustam às necessidades de qualquer empresa, desde que adequadamente identificadas e implantadas.
A LOGÍSTICA FERROVIÁRIA
No âmbito do Estado de São Paulo, após a recente cisão da ferrovia FERROBAN, passamos a ter o seguinte quadro de empresas ferroviárias atuantes:
BRASIL FERROVIAS
FERRONORTE S/A
FERROBAN FERROVIAS BANDEIRANTES S/A
FERROVIA NOVOESTE S/A
PORTOFERFCA - FERROVIA CENTRO-ATLÂNTICA S/A
ALL - AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA
MRS LOGÍSTICA S/A
São 07 ferrovias que fazem a ligação com todas as regiões do país e também com
dois países do Mercosul (Uruguai e Argentina podendo chegar ao Chile), com a Bolívia e
com o resto do mundo através do maior e principal porto - o Porto de Santos.
Após o período inicial de concessão dos serviços ferroviários à iniciativa privada
(privatização), começou-se uma nova fase de investimentos na recuperação da
infraestrutura de operação, ou seja, dormentes, trilhos, vagões, locomotivas e
terminais intermodais próprios ou de terceiros.
Não chegamos a "ver" os investimentos na ferrovia como no caso das rodovias em
que se percebe as obras que estão sendo feitas por obstruirem nossa passagem enquanto
passamos por elas. Entretanto, estão sendo realizadas muito embora sejam caras e
demoradas devido ao fato de serem executadas conjuntamente à operação do
transporte.
Não atingimos ainda o mesmo nível das ferrovias do primeiro mundo, mas certamente
chegaremos lá. Importa dizer que muito está sendo feito e gerando resultados excelentes.
Aos poucos o transporte ferroviário está ocupando seu espaço e importância no cenário
nacional, pois ao investirem milhões de reais na aquisição de sua concessão, a
primeira atitude das empresas foi atender as cargas já existentes e que
proporcionavam algum retorno, muitas delas dos próprios acionistas.
Passados seis anos, algumas dessas ferrovias em estado mais avançado de
investimentos e ação comercial, começaram a se preparar para buscar e atender um
mercado que até então não se podia fazer e nem tampouco o próprio mercado acreditava
que seria atendido, ou seja, o mercado da carga geral, da carga de maior valor agregado,
da carga conteinerizada.
Somando-se a isso, as ferrovias foram favorecidas também pela privatização das rodovias
e dos terminais portuários, que geraram impacto nos custos de frete com o aumento do
valor e das praças de pedágio - no caso das rodovias, bem como a melhoria dos serviços
e dos custos portuários - no caso do Porto de Santos.
Muita coisa mudou desde os últimos seis anos e, certamente não será o mesmo
nos próximos seis anos ou mais, porque a dinâmica da movimentação de mercadorias,
seja "inbound" ou "outbound" sempre buscará novas e diferentes
maneiras para melhorar a logística visando aumentar a competitividade, reduzir custos ou
minimizar fatores que agregam custos permitindo assim estar à frente do mercado e
manter-se atuante numa economia globalizada.
Fato relevante que se observa no mercado diz respeito ao seguinte:
As empresas em geral estão interessadas no transporte ferroviário, querem descobrir e
avaliar essa perspectiva, porém por ser o Brasil um país de cultura rodoviarista, há
ainda muito ceticismo em relação ao modal ferroviário e suas perspectivas operacionais,
achando que somente transportam cargas de baixo valor agregado, grandes volumes e a
grandes distâncias.
O que se percebe é que falta informação específica e conhecimento para que as empresas
possam avaliar e identificar qual ou quais ferrovias podem atender suas necessidades de
transporte.
A resposta está relacionada com o seguinte procedimento a ser realizado:
- Avaliação da sua localização geográfica no contexto ferroviário.
- Identificação das alternativas ferroviárias de acordo com o modelo logístico atual caracterizado pelo tipo de carga e fluxos de transporte.
- Desenvolvimento de um projeto específico.
- Implementação e gerenciamento da logística.
Este procedimento permite às empresas avaliarem sua logística atual e se situarem em relação às novas oportunidades e perspectivas existentes quanto ao transporte ferroviário, objetivando proporcionar redução de custos, melhoria da segurança e da qualidade do transporte, manutenção estratégica das necessidades atuais com perspectivas de longo prazo, permitindo também um planejamento e suporte ao crescimento do mercado.
A ESTRATÉGIA
De acordo com o PDDT citado no início deste artigo, no Estado de São Paulo a carga
geral responde pelo maior volume de transporte com um movimento da ordem de 530 milhões
de toneladas anuais, ou 82,3% do total.
Em 20 anos deverá atingir 1,047 bilhões de toneladas anuais, representando 83,3% do
total.
Sendo assim, considerando a perspectiva do desenvolvimento e implantação do transporte
ferroviário do ponto de vista da estratégia logística, temos que considerar a seguinte
classificação de carga para uma correta identificação e avaliação:
Carga Geral (seca, granel e líquida)
Podemos considerar como sendo o tipo de carga não conteinerizada, que deve ter um
tratamento diferenciado por ser característica de vagões tipo gôndola, fechado comum,
graneleiro, prancha, tanque, all door, piggy back, e outros equipamentos como o
transtrailer e o road railer.
Atualmente muitos projetos já podem ser analisados e desenvolvidos para diversos tipos de
carga e, em alguns casos existe a perspectiva de investimento conjunto entre a empresa
ferroviária e o cliente interessado, como a reforma ou recuperação de vagões e
instalações.
Para se identificar e desenvolver uma logística ferroviária adequada,
será necessário avaliar as características que envolve o produto e a necessidade
do transporte a ser realizado, como os fluxos, volumes, acondicionamento, tipo de vagão,
frequências, tempo de trânsito, custos atuais de frete entre outros.
Isto é necessário porque permite identificar não apenas a viabilidade da
logística, mas sua execução imediata ou no curto, médio e longo prazos, dependendo da
disponibilidade operacional da empresa ferroviária ou mesmo de investimentos a serem
efetuados.
Carga Conteinerizada (Importação, Exportação e Mercado Interno)
A natureza operacional deste tipo de carga normalmente envolve:
Na exportação e importação, muitas operações são realizadas sem um padrão definido ocasionando na maioria das vezes custos desnecessários com o transporte do conteiner vazio, com transferências e transbordos entre o terminal portuário (em que ocorreu a atracação do navio) e TRAs ou EADIs, com demurrages de conteiner, etc. que podem ser minimizados e até extintos. São operações consideradas tradicionais e normalmente aceitas pelas empresas, quando na verdade podem e devem ser revistas para que uma logística mais adequada seja implantada a partir do transporte ferroviário.
Para implantação da logística de transporte ferroviário, deve-se considerar as seguintes condições essenciais:
Considerando porém, a existência de vários armadores, terminais portuários, TRAs, EADIS, ferrovias, transportadoras e terminais ferroviários que oferecem uma gama de serviços acessórios, surgem então alguns questionamentos que devem ser respondidos para implantação da logística mais adequada:
Quando se implanta uma logística consciente, consistente e convergente com os
objetivos empresariais, a redução de custos, a melhoria da qualidade e da segurança do
transporte são efetivamente percebidas resultando em ganhos que podem variar de 15 a 30%.
Atualmente é muito importante pensarmos em buscar alternativas que nos ofereçam
estratégias e vantagens operacionais e financeiras; porém é vital conhecermos e
acompanharmos tudo o que está acontecendo ao nosso redor quando falamos de logística de
transportes, seja rodoviário, ferroviário, marítimo internacional e de cabotagem,
hidroviário, aéreo e dutoviário.
As diversas empresas que atuam neste segmento estão constantemente buscando a melhoria de
seus serviços com o objetivo de prover o mercado de transporte com mais e mais soluções
de modo a atender a características e necessidades diversas.
A logística de transporte ferroviário deve começar a fazer parte do dia a dia de todos,
se não na prática realizando efetivamente o transporte, pelo menos na cultura, no
conhecimento para que, à medida em que há um maior desenvolvimento e investimento
no setor, estejamos preparados para dele usufruir.
As informações referente ao PDDT são importantes, pois expressam um trabalho
sério e competente realizado pela Secretaria de Transportes através do Dersa, o
qual demonstra uma preocupação com a situação atual e futura da movimentação de
cargas no Estado de São Paulo na medida em que nos apresenta dados atuais projetando-os
para os próximos 20 anos; e não é dificil imaginar as dificuldades que teremos se no
mínimo, algo não for feito e também se nar dermos atenção especial para isto.
abril/2002
GILSON AP. PICHIOLI*,* Administrador de Empresas com pós-graduação em Marketing, Gilson Ap. Pichioli tem
larga experiência em Logística Ferroviária, tendo atuado por mais de 20 anos
na Fepasa-Ferrovia Paulista S/A (atual Ferroban) desenvolvendo a comercialização do
transporte ferroviário em diversos segmentos empresariais - tanto nacional (notadamente
no Estado de São Paulo) quanto internacionalmente. Consultor em Logística Multimodal
especializado no desenvolvimento, implantação e gerenciamento de alternativas de
transporte, procura proporcionar às empresas uma análise da sua logística atual em
relação às novas oportunidades e perspectivas do setor.
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