À RODA DA LOGÍSTICA
TERMINAIS UNIMODAIS E DISTRIBUIÇÃO URBANA

1. Temos vindo a referir-nos ultimamente, com alguma insistência, ao tema dos terminais rodoviários ou Centros de Transporte de Mercadorias (CTM), por três razões principais: porque se nos afigura que, quando falamos deles, nem todos procuramos ou queremos significar o mesmo, porque já temos tantos estudos realizados sobre a matéria e nenhum deles infelizmente levou, até agora, a qualquer concretização, e, finalmente, porque pode acontecer, e isso seria indesejável, que acabemos por passar de uma situação em que praticamente nada existe, como a presente, para outra em que haja infra-estruturas dessas em excesso, confirmando aquele velho adágio de que “não há fome que não dê em fartura”.
Independentemente da necessidade que o país tem de possuir infra-estruturas logísticas ao longo do território, necessidade essa que, pelo menos no plano teórico, irá ser colmatada através do Plano da Rede Nacional de Plataformas Logísticas, previsto para breve, existe a realidade dos terminais unimodais, que teriam de existir mesmo que não tivesse sido “descoberta” a Logística. Por exemplo, no transporte rodoviário de mercadorias é indubitável que, quaisquer que fossem as circunstâncias, teria de haver infra-estruturas de apoio ao referido modo de transporte. O aumento de produtividade dos veículos e das viagens passa desde logo pela criação de espaços destinados a permitir, garantir ou favorecer a presença e operação do transportador rodoviário no mercado da carga fraccionada, parcelada , ou da grupagem. Tais espaços servem ainda de “interface” no acesso às áreas metropolitanas onde se processará a transferência de mercadorias de viaturas pesadas para veículos mais ligeiros (“cross-docking”) em ordem à facilitação do trânsito nessas urbes e portanto à melhoria do sistema de distribuição urbana. Finalmente, essas áreas podem funcionar pura e simplesmente para estacionar ou parquear vigiadamente as viaturas nelas recolhidas.
Do ponto de vista do ordenamento e localização dos terminas unimodais, e apenas destes, a questão não é simples, quanto mais se se introduzirem no sistema todos os outros tipos de infra-estruturas nodais de transporte e plataformas logísticas, que são inúmeros.

2. Lembramos, de passagem, os terminais portuários, cujo papel no processo de distribuição urbana assume por vezes grande relevância. Pode servir de exemplo o caso das bobines de papel de impressão, importadas dos países nórdicos, através do porto de Lisboa, e que ficavam nos armazéns deste, até serem, de maneira faseada, entregues à gráficas onde se faziam os jornais, muitas vezes localizadas em zonas pouco espaçosas da cidade (Rua do Século, etc.) e portanto dotadas de reduzida capacidade de armazenagem.
Evidentemente que conceder aos terminais portuários algum protagonismo no processo de distribuição urbana não é o mesmo que pretender localizar terminais rodoviários de mercadorias no centro das cidades! Um dos objectivos principais dos CTM’s é justamente evitar que os camiões TIR “invadam” as zonas urbanas e nelas possam produzir efeitos nefastos em termos de ambiente, congestionamento e acidentes. Daí que o posicionamento preferencial desses Centros, dadas as suas funcionalidades, seja na periferia das áreas metropolitanas, conforme se referiu atrás.
Todavia, terão, a nosso ver, de existir espaços de operação, a que temos vindo a chamar Parques de Estacionamento de veículos de mercadorias, localizados mais próximo das cidades, que diferirão dos CTM’s, sobretudo por se destinarem a viaturas mais ligeiras, do tipo, por exemplo, das que parqueiam por norma em Santos, na capital, ou antigamente estacionavam em Campolide e noutras paragens da cidade de Lisboa.

3. Temos então, mesmo somente em relação aos terminais unimodais rodoviários, uma problemática de organização de tráfego que tem necessariamente de enquadrar os CTM’s, os Parques de Estacionamento de veículos de carga e a questão da distribuição urbana, a que também se tem chamado Logística das Cidades (“city logistics”).
Uma tal problemática encerra em si alguma conflitualidade na medida em que, se não forem correctamente perspectivados os Centros, os Parques e o processo de distribuição urbana, pode haver, por exemplo, entre os Centros e os Parques, alguma competitividade indesejável, com prejuízo para a procura dessas infra-estruturas, e ao fim e ao cabo, para a sua rentabilidade. Se não for assumido adequadamente aquele processo, podem inviabilizar-se as finalidades que os Centros e os Parques se destinam a cumprir.

4. Fazer passar CTM’s da periferia das áreas metropolitanas ou das grandes cidades para o interior das mesmas, poderá prejudicar os efeitos de um importante objectivo a atingir por aquelas infra-estruturas, que é o “cross-docking”. Dotar os Parques de Estacionamento de condições de atractividade para camiões TIR ou não os proteger em relação à poluição, através de medidas de impacte ambiental, mesmo quando limitados a acolher veículos de carga mais ligeiros (criação de zonas verdes, etc.), são soluções que impõem uma mais cuidada reflexão sobre as funcionalidades das referidas infra-estruturas.
Finalmente, o processo de distribuição urbana deve articular-se com os Centros e os Parques, com vista à melhoria da organização do tráfego nas cidades e em termos de a circulação nestas, para efeitos de cargas e descargas ou outra qualquer razão, se fazer com racionalidade, evitando-se poluição, congestionamento e acidentes, através do uso de viaturas mais apropriadas, actuando com maiores taxas de ocupação, e por via disso, circulando em menor número.
Não está feito o estudo da questão levantada no presente artigo. Tentámos criar condições para que ele se realizasse, numa candidatura que apresentámos ao 5º Programa-Quadro de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico da União Europeia, que injustificadamente não foi aceite. Esperamos que esse trabalho se faça oportunamente. Todavia, nada impede que, em Portugal, os projectos dos Centros, dos Parques ou da Distribuição Urbana, andem para a frente, e quanto antes ... Apenas se recomendam alguns cuidados. Falar disso, neste momento, pareceu-nos ser o nosso dever.

abril/2001

A. Figueiredo Sequeira,
Consultor de Transportes e Logística da ANTRAM.

figsequeira@mail.telepac.pt

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