FUSÕES E INCORPORAÇÕES
MUDANÇA, SEMPRE MUDANÇA
Até o início da década de 90, o Brasil
vivia em uma economia fechada, protegida por barreiras alfandegárias. Em decorrência, o
mercado interno era cartelizado, dominado por oligopólios e, em alguns casos, até mesmo
por monopólios. Acresça-se a esse cenário, um regime inflacionário que mascarava as
ineficiências de empresas cheias de gordura, sem a mínima preocupação com
produtividade ou qualidade. O preço era decidido intramuros, envolvendo os pseudos
concorrentes ou, na pior das hipóteses, discutido junto ao CIP (quem não se lembra dessa
sigla toda poderosa?) em Brasília. A equação para definição do preço dos produtos ou
serviços era a mesma dos tempos dos fenícios:
Preço de venda |
= |
Preço de compra |
+ |
Custo da operação |
+ |
Lucro |
É claro que o lucro
advindo das vendas era apenas uma parte (não raras vezes até menor), já que os ganhos
com a ciranda financeira faziam dos profissionais desta área os mais ouvidos e
respeitados de toda a organização.
E o cliente? Bom, este, coitado, estava mais para refém do que para cliente. Era o país
da "empurroterapia goela abaixo", pois imperava uma demanda reprimida
artificialmente que obrigava o consumidor a decidir apenas com as alternativas de
"pegar ou largar". E olha que a decisão de compra freqüentemente era tomada
muito mais como forma de escapar à inflação galopante pois, deixar, para amanhã sempre
trazia o risco de uma nova tabela de preços (o maior argumento de vendas da época).
Quando o presidente Collor, imitando D. João VI, "abriu os portos" do Brasil
pela 2ª vez em sua história, passamos a conviver com um cenário de regime
aberto, mercado globalizado, com a presença de players internacionais, detentores
de tecnologia de ponta e saúde financeira de primeiro mundo. Tivemos nesses 10 anos uma
guinada de "360o em elipse" (pra não voltar ao ponto de partida). As
empresas nacionais passaram a conviver com o efeito perverso de uma autêntica economia de
mercado, que, levou muitos empresários a decidir entre: a) "fazer a lição de
casa", vale dizer, enxugar os custos, derrubar os muros, diminuir os níveis
hierárquicos, adotar estratégias de marketing para conquistar e fidelizar os clientes,
implantar sistemas de qualidade total, terceirizar serviços não essenciais e, ufa! ver
se sobrava algum no fim do mês; b) buscar sócios que injetassem moeda forte a fim de
garantir a continuidade dos negócios; ou c) passar o negócio adiante.
A equação, a partir de então, passou a ser:
Preço de venda |
- |
Preço de compra |
- |
Custo da operação |
= |
Lucro ou prejuízo |
Já na vigência do
Plano Real, o Brasil passou a conviver com inflação baixa, juros altos, mercado
consumidor mais exigente pela ampliação de ofertas e acesso a produtos outrora
impensáveis. Experimentou ainda a desregulamentação da economia que trouxe uma onda de
privatização de empresas consideradas até então emblemáticas e intocáveis. Como o
capital lá fora é mais barato e os ativos de muitas empresas nacionais estavam "mal
das pernas" instalou-se uma sucessão de fusões, incorporações e aquisições,
porque agora nos encontramos em pé de igualdade com os centros mais avançados da
economia globalizada. Que ninguém se iluda, a competição não é mais entre nacionais e
internacionais, nem entre grandes e pequenos. O nome do jogo agora é "velocidade de
resposta", trazendo à luz novamente embates do tipo "Davi e Golias" (Vide
a disputa entre a Coca-Cola e os fabricantes de tubaína). A vantagem das grandes é que
elas podem manter e ampliar seu market share através da compra de seus pequenos
concorrentes.
E quais são os reflexos deste cenário para o mercado de trabalho e, consequentemente,
para os trabalhadores?
O mercado de trabalho passa por profundas e bruscas transformações em decorrência das
fusões e aquisições, compondo o seguinte quadro:
Retração da oferta de emprego;
Surgimento de programas de demissão
voluntária;
Terceirização de atividades não
essenciais;
Elevação do nível de exigência para
novas contratações;
Migração do setor de bens e consumo para o
setor de serviços;
O surgimento de cooperativas de trabalho
como forma de flexibilização dos vínculos empregatícios;
Profissionalização das outrora empresas
familiares;
O surgimento de um contingente de 5 a 10 por
cento da população economicamente ativa dedicado a atividades da chamada economia
informal;
A "exportação de empregos"
através da contratação de produtos e serviços no país de origem das detentoras do
controle acionários de empresas outrora nacionais.
E como fica o
processo de adaptação dos empregados remanescentes no "day after" de uma
fusão ou incorporação? Sobreviverá quem souber quais competências preservar (seus
pontos fortes), quais esquecer (aquelas que não agregam mais valor) e, quais antecipar
(frente às novas exigências).
Frente aos desafios da mudança, encontramos também quatro posturas típicas entre os
trabalhadores:
- Proativos "arquitetos do
futuro", tomam iniciativa e se antecipam aos fatos, colocando-se "aonde a bola
vai chegar".
- Coativos atuam bem em equipes,
constituindo-se em importante elo de ligação entre os proativos e os reativos.
- Reativos "engenheiros de
manutenção de obras feitas", estão sempre lidando com situações criadas pelos
outros, "apagando incêndio" ou "enxugando gelo".
- Inativos agem apenas no círculo
vicioso de seus hábitos arraigados. Diante de um cenário de mudanças, sentem-se
desestabilizados pela ameaça da perda de seu satatus quo e dificilmente agarram
qualquer nova oportunidade que apareça.
Para quem tem a
responsabilidade de conduzir o processo de mudança, pós fusão ou incorporação, é
importante adotar estratégias compatíveis com as diferentes etapas da curva de
aceitação da transição:
NEGAÇÃO
informar
1 |
COMPROMETIMENTO
reconhecer
4 |
2
RESISTÊNCIA
ouvir |
3 EXPLORAÇÃO
envolver |
À guisa de
conclusão, gostaria de deixar três reflexões de autoridades no assunto:
"O momento mais
perigoso na vida das nações é o intervalo entre sistemas quando não mais se
acredita nas soluções antigas, mas os novos hábitos e instituições ainda não se
firmaram." Michael Novak
"A mudança rápida
baseada no conhecimento impõe um imperativo inequívoco: Toda organização precisa
incorporar a gestão da mudança no mais profundo de sua estrutura." Peter
Drucker
"Hoje não somos
limitados pelas oportunidades de mercado. Somos limitados pela nossa imaginação."
C. K. Prahalad
Américo Marques
Ferreira,
Consultor do Instituto MVC
www.institutomvc.com.br
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