Demand Chain - quebrando paradigmas... e empresas

Se você é um profissional de logística e achar que tudo o que está escrito neste texto está longe de interferir no seu trabalho, sugiro preparar o seu "passaporte" para o obituário dos esquecidos... ou desempregados. Não se sinta solitário, haverá uma legião de iguais perdidos em meio a velhos e obsoletos paradigmas.
Demand Chain é o novo perfil do supply chain.
Existe um novo condutor na cadeia de provimento. Um novo regente, capaz de comandar de forma insensível todos os participantes do supply chain.
Seu nome: consumidor final. Seu poder: imperial. Seus desejos: conveniência, preços cada vez mais descendentes, comodidade e logística... muita logística.
Vamos assistir a mais brutal revolução nas áreas de distribuição, armazenamento e transporte que esta geração (e quiçá muitas outras) já assistiu.
Muitas são as transformações. Vem de todos os lados e de todas as direções. Não sabemos bem como medi-las ou como dimensioná-las, mas todos percebemos os seus efeitos. Há uma sensação diferente no ar, um fluído novo, uma nova química capaz de mixar medo, espanto e perplexidade diante da revolução da Web.
Analisemos algumas dessas transformações:
Globalização. Pouco a acrescentar em relação a tudo o que já foi dito e decantado a respeito da nova extensão de nossos "braços" comerciais, sociais e intelectuais. Global passou a ser normal. A Web turbinou a globalização.
A revolução industrial deslumbrou a sociedade com a ferrovia. Ela adicionava uma nova perspectiva à população com relação a distância. Tudo o que tínhamos até então como meio de transporte terrestre era o "lombo de um cavalo" (ou tração animal). O nosso limite de distância estava atrelado a capacidade que esse nobre animal podia nos conduzir. As fronteiras estavam claras e os horizontes eram sempre inatingíveis.
Eis que surge a ferrovia e rompe as fronteiras...
Pela primeira vez na história as pessoas tinham mobilidade real.
Tudo mudou a partir da estrada de ferro.
Com o advento da Internet e do comércio eletrônico o efeito não foi menor. Mais uma vez a sociedade se depara com uma nova realidade, capaz de jogá-la para fora de seus limites geográficos e espaciais.
Como bem diz o sempre venerado Peter Drucker..." na nova geografia mental criada pela ferrovia, a humanidade dominou a distância. Na nova geografia mental do comércio eletrônico, a distância foi eliminada. Hoje existe apenas uma economia e um único mercado "...
Amém.
Desintermediação. Atenção todos os intermediários, infomediários, atravessadores, brokers e demais participantes dessa secular ciranda de açambarcadores dos meios de produção ! Nosso todo poderoso consumidor final assumiu o comando. Demand Chain neles !
Pouco ou nada restará dessa enorme quantidade de membros que no decorrer dos anos ocupou um grande espaço na estrada que interliga o provedor do produto (ou serviço) ao consumidor do mesmo.
Obviamente a cadeia está cheia de intermediários vitalícios, sem os quais ela não existiria. Mas no decorrer dos anos "uns" ficaram menos produtivos e mais especulativos, onerando toda a relação com o consumidor.
Um leve exemplo: setor fonográfico. Quem sobrará dentro do supply chain do setor fonográfico com a chegada do MP3 ? De um lado, quem compõe a musica, do outro quem a ouve. O resto....
O mercado rediscute a tudo e a todos.
Precisamos mesmo de agentes de viagens, corretores de seguros, operadoras de planos de saúde, atacadistas de ocasião, operadores marítimos encastelados em sindicatos, revendedoras autorizados de veículos, etc, etc. ?
Quem saberá a resposta ? Poucos. Mas ela virá...já está vindo.
É hora de migrar. Hora de entender os novos papéis dentro da cadeia de demanda. Hora de se ajustar aos novos tempos e aos novos modelos de intermediação.
Seguramente uma nova geração de players entrarão nesse jogo, mas com papéis bem diferentes dos últimos 50 anos...
Desverticalização. Elimine de sua mente o velho conceito de concorrência. Relaxe e pense em coopetição, um mix de cooperação e competição.
Cada vez mais assistiremos a construção de alianças entre competidores históricos.
Seria possível, há 5 anos atrás, imaginar um portal de compras cooperadas (Convisint), em que os participantes fossem nada mais nada menos que General Motors, Ford, DaimlerCrysler, Renault e Nissan ?
Juntas deverão comprar algo em torno de US$ 240 bilhões e separadas continuarão se engalfinhando no mercado em busca de um espaço na mente do consumidor.
Se ficarmos pelas terras brasilis o susto não será menor. Como suspeitar há alguns anos atrás que companhias como Vale do Rio Doce, Alcan, Alcoa e mais outras 14 empresas do setor estariam criando juntas um ambiente de procurement ?
Ou como pensar que 20 dos maiores hospitais de SP (alguns deles separados por algumas quadras) estariam ainda este ano se movimentando para comprarem juntos insumos hospitalares ?
Isso significa o fim da competição ? Longe disso. Significa a necessidade brutal de operar com margens de custos cada vez mais em conformidade com as demandas do mercado consumidor. Isso mesmo, demand chain.
É a volta da velha e boa economia de escala operando milagres nos dois lados do balcão B2B. Fornecedores felizes por trabalharem com volumes compensadores, que alavancam a rentabilidade do negócio e clientes (manufatura em geral) radiantes por poderem racionalizar custos internos, sem o subversivo (e suicida) repasse ao consumidor final.
Quem se sentir incomodado com essa "coopetição"... que se mude, ela veio de forma irreversível.
Convergência de Tecnologias. Durma com essa realidade: em 4 ou 5 anos estaremos acessando mais a Internet pelos celulares do que por PCs...
O Brasil possuía há 4 anos atrás pouco mais de 4 mil km de redes em fibra óptica, hoje possui mais de 45 mil. Uma malha capaz de integrar a mais remota célula empresarial a qualquer multinacional.
Só a Telesp Celular anuncia que até o final deste ano estará colocando no mercado 500 mil celulares WAP.
Tracking, roteirização, sensoware, warehouse management systems e muitas outras tecnologias sendo controladas por celulares, em tempo real e por qualquer empresa pequena, média ou grande. Só não pode ser "velha"...
Fornecedor controlando inventário de cliente, cliente planejando a produção do fornecedor e ambos sendo observados atentamente pelo implacável consumidor final, que não hesita em desintegrar um insubordinado player desse jogo...
E por aí vai.... desregulamentação, privatização, desmaterialização, volatilidade, etc... Esse é o novo ambiente do supply chain, cuja única regra conhecida é a de que não existem regras.
Perdeu o sentido falar em cadeia de abastecimento. Faz supor que ela própria é capaz de prover a direção, o consumo, a oferta e a distribuição do bem. Ledo engano. Quem impõem os parâmetros é o novo condutor...
Mais que regras, ele impõe a velocidade. Alta velocidade.
E a logística ? Como fica o logística no demand chain ?
Não há um único dia em que não abrimos um jornal ou revista, em que não haja um texto sobre e-business, onde a lógica é sempre..."a Logística é o gargalo do e-commerce !"... "a Logística está emperrando o mercado digital"... "os desafios do e-business para superar os problemas da Logística " ...e por aí vai.
Exagero ? Certamente que não.
Mas talvez esteja chegando a hora de pensarmos que a Logística é a salvação do e-commerce. Talvez mais que isso.
À exceção de alguns produtos virtuais (como a musica e o e-book) não pode haver comércio digital sem uma logística real.
Loja virtual de produto físico que possui logística real vai em frente, tem futuro. Se não possuir, vai ficar de castigo, atrás da porta, sem investimento, sem consumidor e muito provavelmente migrando de e-commerce para ex-commerce...
Talvez a mais importante mudança na logística com o demand chain é a sua velocidade. Esse é basicamente o diferencial. E isso é capaz de revolucionar todos os demais conceitos básicos.
Multimodalidade, logística integrada, logística de resultados e muitos outros dogmas que pelo menos no Brasil ficaram adormecidos (ou sequer nasceram) são agora o santo graal para se alcançar a velocidade exigida pela cadeia de demanda.
Ao transporte não basta ser seguro ou confiável... tem de ser barato e rápido. À distribuição não basta ser geograficamente ampla ou regionalmente eficiente (com freqüência garantida), tem que ser extremamente rápida e flexível para acompanhar os desmandos do demand chain.
E à armazenagem não cabe ser somente protegida ou segura, tem de ser, acima de tudo, estrategicamente localizada de forma a garantir a agilidade e a velocidade da distribuição.
Velocidade é a palavra-chave.
Podíamos prescindir dela, hoje podemos desaparecer sem ela...
Demand Chain Management é um conceito novo, uma nova realidade, uma nova disciplina. Herda as matizes do supply chain, mas impõe novos modelos e certamente novos desafios para os membros da cadeia.
Daqui a 10 ou 20 anos ainda estaremos estudando os seus efeitos e os modelos criados a partir do seu surgimento. Não teremos mais que nos preocupar com e-business ou com e-commerce... tudo será digital... tudo será e.
Talvez seja cedo para termos um modelo acadêmico e científico sobre esse tema, mas certamente já é muito tarde para não percebermos as transformações que ele nos impõe.
O show está apenas começando... mas temos que decidir rapidamente de qual lado estaremos: no palco ou na platéia.

Guilherme S. Hummel,
Gerente Regional SP da GLOBAL TRENDS SYSTEMS
(11) 5509-1548
  ghummel@globaltrends.com.br

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